Em abril de 2024, chuvas intensas no Rio Grande do Sul desencadearam um desastre climático com poucos paralelos no mundo. Os impactos sociais e econômicos foram severos: o desastre afetou 2,4 milhões de pessoas e tirou a vida de 183. Oito a cada dez municípios gaúchos decretaram emergência. Cidades tiveram bairros devastados. Porto Alegre ficou meses sem aeroporto e rodoviária. O prejuízo no estado foi estimado em R$ 88,9 bilhões.
Exemplo do risco que o Rio Grande do Sul e o Brasil enfrentarão cada vez mais, o episódio revelou a insuficiência das estruturas institucionais, levou o governo federal e o estado a criarem órgãos extraordinários para responder à calamidade e escancarou que a adaptação climática é uma agenda urgente, intersetorial e indissociável de qualquer perspectiva de desenvolvimento para o país.
Entendendo a construção do risco: causas raiz do desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul
Veja o estudo
Mas que fatores contribuíram para o maior desastre da história do Rio Grande do Sul? Que fragilidades amplificaram os impactos das chuvas, e precisam ser enfrentadas pelo estado, os municípios e o Brasil como um todo em seus esforços para adaptação e resiliência? É o que o WRI Brasil busca responder com o texto para discussão Entendendo a construção do risco: causas raiz do desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul.
O estudo mapeou os processos sociais e históricos, as decisões e ações frente aos riscos que contribuíram decisivamente para a magnitude das perdas e danos. O desenvolvimento da pesquisa mobilizou quase 50 especialistas e representantes do setor público, da academia e da sociedade civil, e identificou 11 causas raiz do desastre. Os resultados podem orientar a formulação de políticas e ações para a reconstrução resiliente, a adaptação e a gestão de riscos e desastres no Brasil e no mundo.
Confira destaques do estudo.
Desastres não são naturais
O estudo contribui para quebrar o mito dos desastres como eventos naturais, não previsíveis ou gerenciáveis. O desastre de 2024 não resultou de causas isoladas, mas de um conjunto de fragilidades que se reforçam, amplificando os impactos. Essa cadeia transformou o evento climático extremo em um desastre.
O volume de chuva histórico foi o gatilho. A geomorfologia e o modelo de ocupação territorial do estado, com muitas cidades construídas às margens dos rios, foram determinantes para a magnitude das perdas e danos. Mas a dimensão do desastre é também consequência de outras causas, como a governança fragmentada, a falta de uma cultura de prevenção, a desigualdade socioeconômica e o negacionismo climático.
Muito além da infraestrutura
As falhas identificadas pelo estudo indicam que a adaptação necessária vai muito além dos urgentes investimentos em infraestrutura. Assim como o desastre não resultou de causas isoladas, a construção da resiliência futura reside em ação coordenada que integre elementos como:
Governança regional
A escala do desastre levou governos federal e estadual a criarem secretarias extraordinárias, e mais recentemente, à criação de uma autoridade estadual das águas. Ficaram evidentes as limitações na governança entre os níveis de governo e a impossibilidade de os municípios enfrentarem sozinhos os desafios da gestão de riscos e adaptação, que são regionais.O governo federal e os estados têm papel fundamental em apoiar os municípios, e ações precisam de coordenação multinível. A nova NDC brasileira reconhece essa lacuna ao estabelecer como prioridade o federalismo climático, o aperfeiçoamento do pacto federativo frente aos riscos relacionados ao clima.
Capacidade fiscal dos municípios
Apenas um a cada dez municípios severamente afetados possui margem orçamentária para ações de adaptação e mitigação. A governança interfederativa deve dar conta de garantir recursos financeiros em condições adequadas à realidade dos municípios, que ainda enfrentam muitos desafios no acesso a financiamento.
Comunicação e cultura de prevenção
A desinformação, o negacionismo e a falta de memória social do desastre alimentam um ciclo de subestimação das ameaças que reforça as condições inseguras e levam, por exemplo, à flexibilização de normas ambientais e à demora na transmissão de alertas durante a emergência. Medidas relativamente simples e acessíveis, como a existência de rotas de fugas, alertas e informações claras e confiáveis poderiam salvar vidas e bens mesmo de moradores de áreas de risco.
Justiça climática
Grupos vulnerabilizados, como a população de baixa renda, foram mais afetados. Negligenciar a lente da justiça climática aprofunda as desigualdades que perpetuam um ciclo de vulnerabilização. É preciso integrar políticas de adaptação, planejamento territorial e proteção social. Ações como a requalificação de favelas e a provisão de saneamento e de moradia digna são medidas que atuam sobre a desigualdade e reduzem a exposição das populações mais vulneráveis. Um exemplo é o Programa Periferia Viva, em que governo federal, cidades, organizações e comunidades constroem juntas soluções para territórios mais dignos e resilientes.
Soluções baseadas na natureza
As SBN promovem regulação climática e hídrica ao mesmo tempo em que geram outros benefícios, incluindo o próprio acesso a áreas verdes – e são uma forma de promover justiça climática. Estrela tem avançado na implementação do Verde Urbano, um sistema de soluções baseadas na natureza e parques lineares idealizado a partir do Acelerador de Soluções Baseadas na Natureza em Cidades do WRI Brasil.
Adaptação é agenda prioritária para o desenvolvimento
A adaptação das cidades a um futuro de instabilidade climática crescente é uma necessidade. Se o risco foi construído historicamente, a resiliência também pode ser construída através de novas escolhas de desenvolvimento que reduzam o risco e os impactos de eventos futuros e melhorem a qualidade de vida da população. Um estudo do WRI de 2025 demonstrou que projetos de adaptação têm um retorno de US$ 10,50 para cada US$ 1 investido, em parte porque geram múltiplos benefícios associados.
O estudo das causas estruturais do desastre do Rio Grande do Sul reforça a urgência dessa agenda e fornece subsídios para orientar decisões e políticas públicas intersetoriais que reduzam o risco de desastres em todo o país. O fundamental é passar da identificação das causas para a ação integrada. A resposta a um sistema de fragilidades envolve mudanças territoriais e institucionais, conectando intervenções físicas a programas permanentes voltados à justiça climática e adaptação.