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O comércio global de alimentos está passando por uma transformação profunda. Em um cenário marcado por mudanças geopolíticas, maior preocupação com a segurança alimentar e crescente busca por cadeias de suprimento resilientes, já não basta produzir em grande escala. A competitividade depende da capacidade de demonstrar que os produtos têm origem legal, são rastreáveis e seguem critérios socioambientais transparentes.

Mais do que uma agenda ambiental, trata-se de uma agenda de competitividade e desenvolvimento. Cadeias mais transparentes reduzem riscos, aumentam a confiança dos mercados, fortalecem relações comerciais de longo prazo, ampliam a segurança da oferta e consolidam a competitividade do agronegócio brasileiro.

Uma das relações comerciais agrícolas mais estratégicas do mundo

Brasil e China mantêm uma das relações comerciais agrícolas mais estratégicas e relevantes do mundo. A soja e a carne bovina são as principais commodities de exportação do Brasil e responderam por cerca de 60% do valor das exportações do agronegócio brasileiro em 2024. A China, principal parceira comercial do país, é a maior compradora desses dois produtos: em 2023, 74% das exportações brasileiras de soja, no valor de US$ 38,6 bilhões, tiveram como destino o mercado chinês, enquanto as exportações de carne bovina somaram 1,33 milhão de toneladas em 2024. Juntas, as exportações de soja e carne bovina para a China geraram aproximadamente US$ 44,6 bilhões entre 2023 e 2024.

Essa relação, no entanto, já não se limita ao intercâmbio comercial. Brasil e China vêm aprofundando uma cooperação estratégica que envolve investimentos, inovação, ciência, tecnologia e o desenvolvimento de cadeias produtivas mais resilientes e sustentáveis. Para o Brasil, avançar nessa agenda significa fortalecer sua competitividade, reduzir riscos e ampliar oportunidades de comércio e investimento. Para a China, significa reforçar a segurança da oferta, a previsibilidade e a estabilidade das relações comerciais.

Em um cenário internacional mais incerto, origem, rastreabilidade e transparência passaram a integrar critérios estratégicos para o comércio agrícola. A rastreabilidade é, cada vez mais, uma agenda de competitividade e desenvolvimento: ao permitir identificar a origem dos produtos, verificar sua conformidade socioambiental e acompanhar as transações ao longo da cadeia, ela fortalece a prevenção e o controle do desmatamento e da conversão. Sistemas robustos ajudam a identificar riscos, evitar a comercialização de produtos associados a irregularidades e direcionar incentivos a produtores e empresas comprometidos com práticas responsáveis. Mais do que responder a exigências internacionais, investir em rastreabilidade significa preparar o Brasil para um mercado cada vez mais atento à origem e à conformidade dos produtos, assim como à resiliência das cadeias de abastecimento.

O que mostra o novo estudo

Rastreando a Responsabilidade: Fortalecendo o Monitoramento do Desmatamento nas Cadeias de Suprimento de Soja e Carne Bovina do Brasil
 
Capa com imagem e título do estudo

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Um novo estudo do WRI Brasil analisou 21 iniciativas que buscam promover cadeias sustentáveis na Amazônia e no Cerrado, identificando lacunas críticas entre elas. Ao todo, foram avaliadas 10 iniciativas relacionadas à soja e 11 à carne bovina.

O estudo "Rastreando a Responsabilidade: Fortalecendo o Monitoramento do Desmatamento nas Cadeias de Suprimento de Soja e Carne Bovina do Brasil" (Tracing Responsibility: Strengthening Deforestation Monitoring in Brazil's Soy and Beef Supply Chains, em inglês) parte do reconhecimento de que o Brasil já possui uma base robusta de legislação, dados e sistemas de monitoramento — como sistemas de monitoramento por satélite, o Cadastro Ambiental Rural, plataformas públicas e protocolos setoriais. O desafio não é criar novos instrumentos, mas tornar essa base mais integrada, acessível e aplicável às decisões de produção, compra, financiamento e investimento, transformando legalidade, rastreabilidade e transparência em confiança e vantagem competitiva.

A cooperação entre Brasil e China surge justamente de um interesse mútuo em tornar as cadeias de commodities mais confiáveis, sustentáveis e livres de desmatamento. Para o Brasil, isso significa fortalecer sua competitividade e reduzir riscos. Para a China, significa garantir segurança da oferta e estabilidade comercial. A relação entre os dois países deve priorizar a implementação, a integração de dados e o fortalecimento da rastreabilidade.

Um cenário ainda fragmentado

Apesar dos avanços, o estudo identifica uma série de desafios que limitam a efetividade dos sistemas atuais. As iniciativas analisadas utilizam critérios diferentes para monitorar desmatamento, adotam datas de corte distintas, apresentam cobertura limitada dos fornecedores indiretos, especialmente na pecuária, e utilizam mecanismos variados de rastreabilidade e verificação.

Essa fragmentação dificulta a comparação entre sistemas, aumenta os custos de conformidade para as empresas e reduz a confiança dos mercados internacionais, prejudicando o uso consistente das informações por produtores, compradores e instituições financeiras. A próxima fronteira da competitividade do agro brasileiro está justamente na integração dessas informações, na interoperabilidade entre sistemas e na construção de uma linguagem comum que aumente a previsibilidade regulatória e fortaleça a confiança internacional.

Uma referência técnica comum

Para enfrentar esse desafio, o estudo propõe um marco de referência unificado: baseado tanto na legislação brasileira quanto em padrões internacionais livres de desmatamento e conversão (ou DCF, na sigla em inglês para Deforestation and Conversion Free), com metas mais ambiciosas de sustentabilidade. A proposta reúne, em um único referencial, um conjunto central de requisitos capazes de orientar fornecedores, compradores, governos e parceiros comerciais no cumprimento da legislação brasileira, complementado por requisitos adicionais voltados a cadeias livres de desmatamento e conversão, permitindo trajetórias progressivas de maior ambição.

Essa referência técnica comum pode apoiar maior convergência entre iniciativas já existentes e oferecer uma base sólida para o diálogo e a cooperação com parceiros comerciais estratégicos, como a China, inclusive em esforços conjuntos para dissociar as exportações brasileiras do desmatamento e da conversão de vegetação nativa.

O Código Florestal como ponto de partida

O Código Florestal aparece como ponto de partida desse processo. Um novo guia da Câmara de Comércio de Importação e Exportação de Alimentos, Produtos Nativos e Subprodutos Animais da China (CFNA) reconhece o cumprimento do Código Florestal como principal referência para a avaliação da sustentabilidade na cadeia da soja. Esse reconhecimento é um chamado para o fortalecimento de instrumentos como o Cadastro Ambiental Rural, sistemas de monitoramento por satélite e mecanismos de controle da produção.

A conformidade legal é uma base inegociável para qualquer cadeia produtiva sustentável. O desafio agora é fortalecer sua implementação e criar condições para ampliar continuamente a transparência, a rastreabilidade e a sustentabilidade das cadeias produtivas, junto com critérios voltados a cadeias mais sustentáveis, livres de desmatamento e conversão.

O Brasil já atua com iniciativas relevantes

O Brasil já conta com iniciativas de impacto relevantes e com potencial de apoiar cadeias mais sustentáveis. O estudo destaca positivamente o Protocolo de Monitoramento de Fornecedores de Gado para a Amazônia (PMFGA), o Protocolo Verde dos Grãos do Pará (PVG) e as plataformas SeloVerde. Essas iniciativas se destacam por integrar elementos-chave de conformidade legal e rastreabilidade.

No caso da pecuária, o PMFGA demonstra uma cobertura ampla no bioma Amazônia e incorpora elementos centrais de conformidade, como a verificação da Autorização de Supressão de Vegetação Nativa, instrumento importante para avaliar se a remoção de vegetação foi legalmente autorizada. O protocolo também organiza critérios de monitoramento para fornecedores de gado e ajuda a transformar compromissos de combate ao desmatamento em procedimentos operacionais para as empresas.

Na cadeia da soja, o PVG se destaca por verificar a Autorização de Supressão de Vegetação Nativa e por ampliar o escopo das checagens de conformidade na cadeia estadual da soja. A iniciativa também utiliza o Cadastro Ambiental Rural como referência e avalia sobreposições com Terras Indígenas e Unidades de Conservação, contribuindo para uma análise mais ampla dos riscos associados às propriedades rurais.

As plataformas SeloVerde, analisadas nos estados do Pará, Minas Gerais e Maranhão, mostram potencial importante por integrar dados públicos e apoiar avaliações no nível da propriedade rural.

Essas experiências mostram que o Brasil já possui instrumentos técnicos, bases de dados e capacidades institucionais importantes. O desafio não é começar do zero, mas aprimorar o que já existe, tornar os critérios mais claros e ampliar sua aplicação de forma coordenada.

10 recomendações prioritárias para avançar rumo a cadeias transparentes e livres de desmatamento

Para enfrentar essas lacunas, o estudo traz 10 recomendações prioritárias para promover a adesão dos vendedores a um protocolo padronizado para o comércio de commodities livres de desmatamento e conversão, em conformidade com a legislação ambiental brasileira e com marcos internacionais.

  1. Propriedade rural como unidade de monitoramento e bloqueio
  2. Uso de fontes de dados oficiais e validadas cientificamente
  3. Garantia de conformidade legal e ausência de trabalho análogo à escravidão
  4. Mecanismos de transparência e verificação
  5. Ampla cobertura territorial
  6. Alcançar a ausência de desmatamento ilegal em todos os biomas brasileiros a partir de 22 de julho de 2008 (conforme estabelecido pelo Código Florestal brasileiro)
  7. Ausência de desmatamento e conversão em todos os biomas brasileiros, com data a ser definida por protocolo voluntário
  8. Rastreabilidade de fornecedores indiretos nas cadeias de soja e carne bovina
  9. Sistema de bloqueio e mecanismos de remediação e reintegração de fornecedores não conformes
  10. Grupo de supervisão com participação da sociedade civil

Entre as recomendações do estudo, está a necessidade de fortalecer o uso de fontes de dados oficiais e cientificamente validadas, garantindo que o monitoramento das cadeias de soja e carne bovina seja baseado em informações confiáveis, auditáveis e reconhecidas por órgãos competentes. Isso inclui bases públicas como o Cadastro Ambiental Rural, listas de embargos, autorizações de supressão de vegetação, Guias de Trânsito Animal, dados sobre áreas protegidas e sistemas de monitoramento por satélite, além de ferramentas validadas pela ciência que possam complementar essas análises. O estudo também destaca a importância de mecanismos de transparência e verificação, com metodologias claras, auditorias independentes e divulgação de resultados, de modo a ampliar a confiança de empresas, governos, compradores internacionais, investidores e sociedade civil.

Outra recomendação central é alcançar a ausência de desmatamento ilegal em todos os biomas brasileiros a partir de 22 de julho de 2008, conforme estabelecido pelo Código Florestal. Esse critério funciona como base mínima para assegurar a conformidade com a legislação ambiental brasileira e reforçar a proteção dos ecossistemas nas propriedades rurais. Além disso, o estudo também recomenda a criação de sistemas de bloqueio acompanhados de mecanismos claros de remediação e reintegração de fornecedores não conformes. Isso significa que fornecedores associados a irregularidades socioambientais devem ser temporariamente excluídos das cadeias, mas também precisam ter caminhos definidos para corrigir problemas, comprovar ações corretivas, restaurar ou regenerar áreas quando necessário e retornar ao mercado formal de forma verificável. Assim, o bloqueio deixa de ser apenas uma medida de exclusão e passa a contribuir para a melhoria contínua das cadeias produtivas.

Fortalecer a cooperação Brasil-China é uma oportunidade estratégica

Ampliar a transparência e a sustentabilidade das cadeias de soja e carne bovina fortalece a parceria entre Brasil e China, ao combinar competitividade, segurança do abastecimento e compromissos climáticos. Garantir comércio sustentável e alinhar essas cadeias produtivas com os compromissos climáticos globais fortalece a relação estratégica entre os dois países, que são grandes parceiros comerciais.

Uma referência técnica comum pode embasar acordos bilaterais, dar maior previsibilidade às relações comerciais e facilitar a demonstração de conformidade pelos exportadores brasileiros nos diferentes mercados. Também poderia criar uma linguagem técnica compartilhada entre os dois países, baseada na legislação brasileira, em dados oficiais e em critérios progressivos para cadeias livres de desmatamento e conversão.

Eliminar o desmatamento das cadeias de soja e carne bovina não é apenas uma exigência de mercado. É uma condição para a resiliência climática, a segurança alimentar global e a reputação do agronegócio brasileiro no longo prazo. O Brasil já dispõe de legislação, instrumentos técnicos, sistemas de monitoramento e atores institucionais capazes de sustentar esse avanço e posicionar o país na liderança dessa agenda.

Featured WRI Experts:
Mariana Oliveira -

Diretora de Florestas e Uso da Terra

Virginia Antonioli -

Gerente Sênior de Sistemas Alimentares Sustentáveis

Ana Beatriz Dos Santos -

Analista de pesquisa

Karoline Silva -

Analista de Pesquisa

Bruno Calixto -

Coordenador de Comunicação

Camila Barbosa -

Analista de Comunicação Pleno

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