Como as finanças sustentáveis podem ser aliadas para enfrentar problemas ambientais e sociais
O mundo enfrenta desafios de grande escala que afetam diretamente o bem-estar das pessoas e a saúde do planeta. Problemas globais como a pobreza e a degradação ambiental estão interligados, e são as comunidades mais vulneráveis que estão na linha de frente dos impactos das mudanças climáticas. O aumento do nível do mar, por exemplo, aumentará a parcela da população mundial exposta a inundações em 24%, isso sem falar nas milhões de pessoas de todo o mundo que enfrentarão problemas hídricos, térmicos e de desertificação.
Resolver esses problemas vai demandar soluções conjuntas, capazes de transformar as realidades locais e internacionais. Para isso, precisamos não só ampliar os recursos para a transição para uma economia sustentável como também redirecionar fluxos financeiros de atividades que geram degradação ambiental para aquelas que promovem regeneração e resiliência climática.
Nesse contexto, as finanças sustentáveis assumem papel estratégico ao alinhar o sistema financeiro aos objetivos do Acordo de Paris e às metas de biodiversidade, tornando-se uma alavanca essencial para corrigir distorções nos fluxos de capital, mobilizar recursos em escala e viabilizar as transformações estruturais necessárias para uma economia de baixo carbono e positiva para a natureza.
Para isso, é necessário compreender o que é o financiamento sustentável, e como ele pode desempenhar esse papel crucial na transição para uma economia de baixo carbono.
As finanças sustentáveis
Pode ser chamado de financiamento sustentável qualquer instrumento financeiro que tenha um objetivo ou desempenho socioambiental claro e mensurável. Em outras palavras, as finanças sustentáveis se referem ao processo de incorporar as preocupações ambientais e sociais nas decisões de empréstimo, investimento e seguros, garantindo que o capital não apenas busque retorno financeiro, mas também não cause danos socioambientais e busque contribuir positivamente para o planeta e a sociedade. Entendendo que diferentes tipos de investidores podem ter ambições distintas em relação à geração de retorno financeiro e de impacto positivo. No entanto, parte-se do pressuposto que todos buscam mitigar riscos para garantir que a alocação de capital não cause danos ambientais e sociais.
O financiamento sustentável surge da necessidade de adequar os sistemas econômicos aos limites ambientais do planeta e trazer uma solução para os problemas sociais conjunturais, como o desafio da descarbonização da economia. Um exemplo de instrumentos sustentáveis são os Títulos Verdes (Green Bonds), que são títulos de dívida emitidos por empresas, governos ou bancos cujo capital levantado é exclusivamente destinado ao financiamento de projetos ou atividades que geram impacto ambiental positivo. Em 2022, o Brasil foi o país que mais emitiu títulos verdes corporativos na América Latina e Caribe, num total de US$ 7,2 bilhões para financiar projetos e de biodiversidade.
Através de instrumentos como os Títulos Verdes, as finanças e sustentabilidade convergem para antecipar e compreender as consequências futuras de uma decisão no presente. Dessa forma, a principal convergência entre finanças e sustentabilidade está na visão de longo prazo e na capacidade de antecipar e gerenciar riscos futuros, buscando não apenas mitigar danos, mas também otimizar impactos positivos sobre o capital natural e social.
Os investimentos sustentáveis possuem enorme potencial para impulsionar a transição verde e alinhar o capital privado às metas climáticas e de biodiversidade. Entretanto, a proporção de recursos efetivamente direcionada para gerar mudanças reais e mensuráveis permanece limitada, revelando a necessidade de aprimorar instrumentos, incentivos e métricas de impacto para ampliar sua escala e efetividade.
Os investidores estão de fato preocupados com a sustentabilidade?
As instituições financeiras têm papel estratégico nesse processo. Elas podem fornecer e facilitar fluxos de capital alinhados ao desenvolvimento sustentável e às metas climáticas internacionais. Assim, podem transformar realidades e acelerar a ação climática.
Por outro lado, instituições financeiras ainda enfrentam desafios para mensurar o retorno ajustado ao risco de investimentos sustentáveis, dada a complexidade de quantificar benefícios ambientais e sociais em métricas financeiras convencionais. Essa limitação frequentemente resulta em decisões de investimento orientadas ao curto prazo e à busca por alta liquidez, privilegiando ativos tradicionais mais alinhados a objetivos financeiros imediatos, em detrimento de oportunidades com impacto positivo de longo prazo.
Além das tradicionais avaliações de risco e retorno, cresce o número de empresas e instituições financeiras que incorporam fatores socioambientais em suas decisões de investimento. O nível de compromisso varia — em alguns casos, a sustentabilidade ainda é tratada como um instrumento de reputação, impulsionado pela pressão de investidores, consumidores e da opinião pública. Essa busca por credenciais “verdes”, como títulos sustentáveis ou relatórios ESG, muitas vezes se concentra mais na construção de imagem do que na geração de impacto real.
Ao mesmo tempo, o mercado e a sociedade têm elevado o grau de exigência. Investidores e reguladores demandam que esses compromissos avancem para além do marketing e se traduzam em resultados mensuráveis. A pressão por transparência e padronização na divulgação de dados socioambientais tem reduzido o espaço para práticas meramente simbólicas e fortalecido a credibilidade de quem adota estratégias consistentes. Esse movimento cria um ambiente de maior confiança entre empresas, governos e sociedade civil — condição essencial para mobilizar capital em direção a soluções sustentáveis que sejam, de fato, efetivas e eficientes.
A necessidade de recursos financeiros
A transição para uma economia de baixo carbono e socialmente inclusiva exige volumes significativos de capital. Para preencher a lacuna financeira necessária para cumprir com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), estima-se que é necessário mobilizar US$ 4 trilhões por ano. No entanto, a oferta atual de financiamento ainda está aquém da escala necessária, marcada por fluxos fragmentados e pela predominância de recursos públicos e filantrópicos.
Nesse contexto, torna-se essencial mobilizar o setor financeiro privado, ampliando instrumentos que reduzam riscos e tornem os investimentos em soluções climáticas e naturais mais atraentes. Mecanismos como blended finance, garantias de crédito, fundos rotativos e títulos verdes têm papel estratégico ao conectar capital institucional e de impacto a oportunidades concretas de desenvolvimento sustentável, especialmente em economias emergentes.
Garantir os recursos necessários para a transição ecológica exige criar condições financeiras e regulatórias que tornem essa agenda economicamente viável e competitiva. Direcionar capital para iniciativas que conciliem retorno econômico, inclusão social e resiliência ambiental é hoje uma necessidade estratégica. Essa é a base para proteger o valor dos investimentos e consolidar um modelo de desenvolvimento capaz de enfrentar os desafios climáticos e sociais das próximas décadas.
A dupla materialidade
O avanço das finanças sustentáveis exige uma nova forma de compreender riscos e impactos. O conceito de dupla materialidade tem ganhado destaque ao reconhecer que empresas e instituições financeiras não apenas são afetadas por fatores ambientais e sociais, mas também exercem influência direta sobre eles.
Na perspectiva "de fora para dentro”, os riscos climáticos trazem argumentos sólidos para acelerar essa transformação. Um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que danos diretos causados pelos desastres naturais entre 2000 e 2019 somaram cerca de US$ 1,3 trilhão, o que corresponde a cerca de 0,2% do PIB mundial, em média, por ano, uma tendência que deve se intensificar.
O Brasil teve um caso recente do impacto do clima extremo na atividade financeira. Em 2024, devido ao desastre das enchentes no Rio Grande do Sul, 44% das instituições financeiras do país foram impactadas, segundo o levantamento do Banco Central. O impacto das chuvas sem precedentes resultou na paralisação de sistemas produtivos e na perda de renda de seus clientes, e assim, afetando o mercado de crédito e o risco de inadimplência.
Já na perspectiva “de dentro para fora”, é essencial ampliar a compreensão sobre o impacto que decisões financeiras podem provocar relacionado à perda de biodiversidade, à degradação da natureza e a desigualdades sociais. Esses elementos ainda são pouco considerados nas decisões financeiras, apesar de seu impacto crescente sobre a economia global.
Avaliar essas duas dimensões — o impacto do ambiente sobre o negócio e o impacto do negócio sobre o ambiente — permite decisões mais consistentes, transparentes e alinhadas a uma economia de baixo carbono. A dupla materialidade reforça a necessidade de integrar finanças e propósito, transformando o investimento responsável em uma ferramenta de gestão estratégica e de criação de valor de longo prazo.
Para além do financiamento sustentável
A dupla materialidade nos mostra que o investimento em ativos sustentáveis é essencial, mas sozinho, não basta. É preciso também reduzir os recursos das atividades intensivas em carbono.
Isso significa que, paralelamente a agenda de finanças sustentáveis, é indispensável repensar o direcionamento de capitais que ainda sustentam cadeias de alto impacto ambiental. Atividades como a exploração de combustíveis fósseis, a expansão do desmatamento e produção baseada em padrões insustentáveis continuam recebendo aportes significativos, o que compromete diretamente os objetivos do Acordo de Paris.
Somente com esse esforço conjunto será possível acelerar a transformação do sistema financeiro global e garantir que o capital esteja a serviço de soluções climáticas de longo prazo.