Em um dia quente de fevereiro de 2024, voluntários se espalharam pela Cidade do Cabo com sensores acoplados aos seus carros. O objetivo era medir os diferentes níveis de calor na cidade. No centro, uma área densa e altamente urbanizada, a temperatura do ar chegava a 41,6°C. Em assentamentos informais como Joe Slovo, na zona norte, não ficava muito abaixo. Já áreas residenciais mais arborizadas no sudeste da cidade mal ultrapassavam os 25°C.

Nas maiores capitais do mundo, o número de dias extremamente quentes (acima de 35°C) por ano aumentou 25% desde a década de 1990. Nas áreas urbanas, esse calor é sentido de forma desigual entre as comunidades – mas algumas cidades estão encontrando maneiras de corrigir essa disparidade.

A desigualdade do calor

Moradores de áreas que já são social e economicamente vulneráveis enfrentam os maiores riscos decorrentes do calor extremo nas cidades, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Em Mumbai, onde as temperaturas podem ultrapassar 38°C, toda a cidade pode parecer sufocante e todos os moradores correm risco de insolação. Ainda assim, pesquisas do WRI Índia mostram que os bairros de baixa renda são mais quentes do que as áreas mais ricas, e a falta de recursos essenciais para amenizar o calor, como vegetação, agrava condições já perigosas.

No cerne dessa disparidade, está a composição do ambiente urbano. Áreas mais ricas tendem a ter mais vegetação, árvores e construções feitas com materiais resistentes ao calor – fatores que ajudam a proteger os moradores de temperaturas extremas. Já áreas de baixa renda e assentamentos informais costumam ter menos áreas verdes e mais construções feitas com materiais mais baratos que retêm calor, como metal, o que torna as altas temperaturas ainda mais insuportáveis.

Mas as desigualdades socioeconômicas explicam apenas parte da variação na forma como as pessoas sentem o calor dentro de uma cidade. Bairros e áreas centrais com alta densidade construtiva e corredores de pedestres movimentados em geral carecem da vegetação e sombra necessárias para manter temperaturas mais amenas. Em grandes áreas turísticas, como a Casa Rosada, em Buenos Aires, ou o Zócalo, na Cidade do México, as pessoas costumam se reunir em praças abertas que retêm calor, expondo grandes grupos a temperaturas potencialmente perigosas. À medida que mais cidades ao redor do mundo se comprometem a mitigar o calor extremo – mais de 200 aderiram à iniciativa Beat the Heat, da ONU, para potencializar a ação em escala local –, é essencial que os tomadores de decisão reconheçam um fato importante: embora não exista uma solução única para o calor urbano, existem estratégias disponíveis que podem funcionar em diferentes cidades e contextos.

Um bom ponto de partida é contar com dados precisos que revelem o quanto os riscos térmicos variam entre diferentes cidades, bairros e até ruas. A plataforma de dados Cool Cities Lab, do WRI, permite análises hiperlocais de risco de calor e a modelagem de cenários com diferentes soluções de resfriamento. A seguir, avaliamos os casos de três cidades que vivenciam a desigualdade térmica – e como cada uma tem utilizado soluções adaptadas a seu contexto para mitigá-la.

O Cool Cities Lab fornece dados locais de calor diretamente às cidades. É possível identificar onde os riscos térmicos são mais intensos e visualizar como esses pontos críticos se sobrepõem a populações e infraestruturas vulneráveis. A plataforma também permite estimar os impactos de diferentes soluções de resfriamento, desde o plantio de árvores nas ruas até a implementação de telhados frios. Saiba mais sobre o Cool Cities Lab.

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A Cidade do Cabo enfrenta dias e ondas de calor extremo, mas nem todas as comunidades e bairros sentem os efeitos da mesma forma.
A Cidade do Cabo enfrenta dias e ondas de calor extremo, mas nem todas as comunidades e bairros sentem os efeitos da mesma forma. (Foto: Ben1183/iStock)

Cidade do Cabo, África do Sul: amenizando o calor nos bairros mais afetados

A Cidade do Cabo tem uma visão realista sobre o futuro em um planeta mais quente. Até 2050, a cidade poderá registrar mais de 20 dias adicionais de calor intenso (com temperatura igual ou superior a 35°C) e até dez ondas de calor a mais por ano em comparação ao cenário atual, caso as temperaturas globais aumentem entre 1°C e 3°C, segundo o responsável pelo Departamento de Calor da cidade, Albert Ferreira. A exposição prolongada ao calor extremo pode agravar problemas de saúde como desidratação, insolação e doenças cardíacas. Temperaturas mais altas também podem sobrecarregar a infraestrutura urbana, danificando estradas, pressionando redes elétricas e aumentando a demanda por resfriamento.

Além disso, o calor não é sentido da mesma forma em toda a cidade. Décadas de exclusão racial no acesso à moradia concentraram pessoas negras nos bairros mais pobres e densos da cidade. Nesses locais, as casas costumam ser feitas de chapas de metal ou plástico, materiais que retêm calor. Em paralelo, a escassez de vegetação e sombra deixa os moradores sem qualquer refúgio contra o calor. Para comunidades como Atlantis, Mamre, Dunoon, Joe Slovo e Sir Lowry’s Pass Village, o cenário de muitos dias seguidos com temperaturas de 35°C já é a realidade.

Plataforma Cool Cities Lab mostrando temperaturas de superfície (acima) e cobertura arbórea junto a assentamentos informais (abaixo) na Cidade do Cabo: pontos mais quentes onde há poucas árvores
Plataforma Cool Cities Lab mostrando temperaturas de superfície (acima) e cobertura arbórea junto a assentamentos informais (abaixo) na Cidade do Cabo: pontos mais quentes onde há poucas árvores (imagem: Cool Cities Lab/WRI).

Reconhecer essas diferenças entre os bairros tem ajudado a Cidade do Cabo a definir as soluções de resfriamento de forma mais eficaz. Com dados do Cool Cities Lab – incluindo mapas de exposição ao calor por bairro e estimativas do potencial de resfriamento de árvores, telhados refletivos e outras soluções –, gestores públicos conseguem identificar onde diferentes intervenções terão mais impacto. “Com acesso a esses dados, conseguimos ver claramente as áreas vulneráveis e quantificar as reduções de temperatura possíveis com diferentes soluções”, afirma Ferreira.

Essas informações ajudam a viabilizar financiamento para infraestrutura resiliente ao calor e a melhorar a comunicação entre as lideranças municipais e os moradores de comunidades vulneráveis a respeito de como essas soluções podem beneficiá-los. Também evidenciam a vantagem de medidas de curto prazo que oferecem alívio imediato. Em geral, o planejamento urbano para o calor prioriza soluções baseadas na natureza (SBN), consideradas altamente eficazes na redução de temperaturas, como a implementação de novos parques. No entanto, esses benefícios podem levar tempo para se concretizar. Novas árvores, por exemplo, podem levar anos até crescer o suficiente para fornecer sombra. Por isso, a Cidade do Cabo tem usado os dados do Cool Cities Lab para complementar esses esforços com intervenções mais rápidas, capazes de ajudar a amenizar as temperaturas em menos tempo.

Em Khayelitsha, uma das áreas mais pobres da Cidade do Cabo, a gestão municipal trabalha junto aos moradores por meio do projeto Benefícios da Adaptação ao Calor para Grupos Vulneráveis na África para aplicar tinta refletiva nos telhados de residências e demonstrar seu potencial de resfriamento. Estudos mostram que telhados frios podem reduzir a temperatura interna entre 1,5°C e 5°C, além de diminuir a temperatura do ar no entorno entre 0,2°C e 0,6°C a cada aumento de 10% na refletividade do bairro. Para Ferreira, esse é um primeiro passo, seguido pela criação de áreas de sombra, centros de resfriamento e ampliação da vegetação em comunidades vulneráveis. “Essas ações podem reduzir fatores de estresse climático e social ao mesmo tempo, melhorando as condições de saúde e os espaços públicos”, destaca.

Hermosillo, no México, é uma cidade de clima desértico, com poucas árvores e historicamente sujeita a dias de calor extremo.
Hermosillo, no México, é uma cidade de clima desértico, com poucas árvores e historicamente sujeita a dias de calor extremo. (Foto: EyeEm Mobile GmbH/iStock)

Hermosillo, México: levando áreas verdes para uma cidade desértica

No final de julho de 2025, moradores de Hermosillo enfrentaram temperaturas recordes de 46°C. A “cidade do sol” conhece bem o calor. Mas, sob condições extremas como essas, o dia a dia ficou muito difícil. Trabalhadores ao ar livre passaram a iniciar o dia antes do nascer do sol para evitar o pior do calor. No transporte público, toalhas úmidas na cabeça e no pescoço tornaram-se uma forma de se refrescar.

Ainda assim, dentro da cidade as condições variavam consideravelmente. No centro, onde árvores cobrem praças e edifícios, as pessoas conseguiam algum alívio à sombra. Já nos bairros periféricos, a falta de árvores e edificações mal ventiladas retinham o calor. Os moradores tinham dificuldade para dormir e relatavam dores de cabeça, tontura e desidratação ao se deslocar pela cidade.

Não é de hoje que Hermosillo enfrenta calor extremo – e continuará enfrentando, já que as mudanças climáticas devem elevar as temperaturas no norte do México em 4°C até o fim do século. Moradores mais antigos lembram de um período em que a cidade estava mais preparada para lidar com o problema, com maior presença de vegetação que ajudava a aliviar o calor. Nas últimas décadas, a região passou de uma economia baseada na pecuária e na agricultura para um centro urbano dinâmico, substituindo grandes áreas verdes por estradas, construções e concreto. Ao mesmo tempo, a escassez de água decorrente do crescimento urbano e de secas mais frequentes levou à remoção de árvores em grandes avenidas e espaços públicos para economizar recursos.

Agora, autoridades municipais de Hermosillo estão usando dados do Cool Cities Lab para entender como essas mudanças moldaram a exposição ao calor na cidade. Ao mapear padrões térmicos entre os bairros, identificaram os locais onde a perda de vegetação e o aumento de superfícies de concreto aumentaram as temperaturas. Essas áreas vulneráveis são chamadas de “zonas vermelhas”, conforme explica José E. Carrillo, diretor-geral do Instituto Municipal de Planejamento Urbano de Hermosillo. “É muito útil conseguir mostrar essas diferenças visualmente em um mapa e explicar por que precisamos agir na cidade.”

Os dados mostraram que a zona noroeste da cidade tem a menor cobertura vegetal (entre 0% e 6%) e pode ser até 14°C mais quente do que áreas mais frescas – uma diferença suficiente para aumentar os riscos à saúde física e mental dos moradores. Em resposta, Hermosillo iniciou, no começo de 2026, a construção de um novo parque urbano para oferecer mais áreas verdes e alívio térmico. Em outras regiões, onde o risco de calor é particularmente elevado – principalmente nos bairros mais novos e periféricos com pouca vegetação –, a cidade trabalha para ampliar a arborização e criar sombra.

Plataforma Cool Cities Lab mostrando as áreas mais quentes de Hermosillo e onde o plantio de árvores pode ajudar a resfriar a cidade. Os mapas superiores mostram zonas prioritárias para arborização, e os inferiores ampliam um bairro específico para destacar pontos de calor e a falta de cobertura arbórea em assentamentos informais.
Plataforma Cool Cities Lab mostrando as áreas mais quentes de Hermosillo e onde o plantio de árvores pode ajudar a resfriar a cidade. Os mapas superiores mostram zonas prioritárias para arborização, e os inferiores ampliam um bairro específico para destacar pontos de calor e a falta de cobertura arbórea em assentamentos informais. (Imagem: Cool Cities Lab/WRI)

Além disso, Hermosillo criou recentemente um viveiro de plantas nativas para impulsionar a restauração da vegetação. Com dados detalhados por bairro orientando essas ações, líderes municipais conseguem identificar onde a recuperação de áreas verdes terá maior impacto. A cidade também usa esses dados para definir os pontos onde a instalação de abrigos de resfriamento e sombreamento adicional – com árvores ou estruturas – pode beneficiar a população ao longo de rotas de transporte e circulação de pedestres.

Telhados frios podem ajudar a reduzir o calor em alguns dos bairros mais quentes de Atlanta.
Telhados frios podem ajudar a reduzir o calor em alguns dos bairros mais quentes de Atlanta. (Foto: Noah Densmore/iStock)

Atlanta, Geórgia: amenizando as temperaturas com telhados frios

Quando o sol atinge Atlanta, os moradores da região oeste são os que mais sentem o calor. Essas áreas da cidade, com população majoritariamente negra, podem registrar temperaturas entre 5,6°C e 8,4°C mais altas do que outras partes da cidade. Os moradores sofrem mais com estresse térmico e riscos associados à saúde.

Essa diferença é resultado de uma sucessão de políticas habitacionais racistas de mais de um século. Na década de 1930, bairros da zona oeste foram classificados como “de risco” por autoridades federais, e seus moradores tiveram acesso negado a financiamentos habitacionais acessíveis, em um processo de demarcação territorial discriminatório conhecido como redlining (linha vermelha). Essa classificação levou a décadas de subinvestimento estrutural cujos efeitos ainda são sentidos hoje.

“As áreas com histórico de redlining costumam ser as mais quentes”, afirmou Evan Mallen, pesquisador de clima do Georgia Tech que coliderou um estudo sobre vulnerabilidade climática em Atlanta, ao Capital B News. “Elas têm menor cobertura arbórea e maior presença de asfalto, concreto e superfícies impermeáveis, o que contribui para o calor urbano.”

Nesses bairros, o ambiente construído retém calor e eleva riscos à saúde, como insolação e doenças cardíacas. Ao mesmo tempo, muitos moradores não têm ar-condicionado devido aos custos elevados e por viverem em construções muito antigas. Enquanto 96% dos moradores de outras áreas de Atlanta possuem ar-condicionado, menos de 80% dos residentes do lado oeste contam com esse recurso, o que os deixa ainda mais vulneráveis, com poucas opções para se refrescar.

Para entender melhor onde esses riscos são mais acentuados, Atlanta encomendou um estudo do Georgia Tech em 2023, a fim de mapear a vulnerabilidade ao calor na cidade, o que revelou profundas disparidades entre bairros. A cidade, então, trabalhou em parceria com a Smart Surfaces Coalition (SSC) – organização que apoia a adoção de soluções urbanas de resfriamento – para identificar as estratégias mais eficazes.

A análise de modelagem, desenvolvida em parceria com o WRI com dados hoje disponíveis no Cool Cities Lab, mostrou que a substituição de telhados por materiais refletivos poderia reduzir a temperatura do ar na cidade em cerca de 1,4°C – o suficiente para diminuir tanto a demanda por energia quanto a incidência de doenças relacionadas ao calor. Em bairros afetados pelas políticas de redlining, o efeito é ainda maior, com reduções de até 3,5°C. Esses resultados levaram o conselho municipal a aprovar por unanimidade, em junho de 2025, uma lei que exige que todos os telhados novos ou substituídos sejam feitos com materiais refletivos, ou “telhados frios”, a partir de 2026.

“Telhados frios são uma estratégia essencial para mitigar o efeito de ilha de calor urbano de forma mais ampla. Temperaturas mais baixas ajudam a proteger pedestres e trabalhadores ao ar livre, reduzir o consumo de energia e a demanda por eletricidade, além de melhorar a saúde pública ao diminuir o ozônio e outros poluentes do ar”, avalia Jacob Miller, diretor adjunto de Políticas e Programas dos EUA da SSC. “Nossa modelagem indica que o uso de telhados frios pode gerar mais de US$ 300 milhões em economia de energia nos próximos 35 anos e evitar a emissão de mil toneladas métricas de poluentes atmosféricos.”

Plataforma Cool Cities Lab mostrando onde o uso de telhados refletivos tem maior impacto na redução do calor urbano em Atlanta.
Plataforma Cool Cities Lab mostrando onde o uso de telhados refletivos tem maior impacto na redução do calor urbano em Atlanta. (Imagem: Cool Cities Lab/WRI)

Refrescando as cidades com equidade

As experiências da Cidade do Cabo, Hermosillo e Atlanta mostram como as cidades podem enfrentar a desigualdade na exposição ao calor. Com dados detalhados que ajudam a compreender as necessidades dos moradores, gestores públicos conseguem identificar os bairros mais vulneráveis e priorizar as soluções que terão maior impacto. Com o calor extremo já contribuindo para cerca de 489 mil mortes por ano – um número que ainda deve subir –, as cidades precisam investir o quanto antes em soluções como arborização, telhados frios e sombreamento, a fim de amenizar a temperatura nos locais onde a população mais sente seus efeitos.

A forma como cada um sente o calor sofre influência de diversos fatores que as cidades podem controlar. Agindo agora, é possível proteger as pessoas e construir um futuro mais resiliente para todos.

 

Saiba mais sobre o Cool Cities Lab e explore os dados.

Este artigo foi publicado originalmente no Insights.