Em Bonn, as negociações para avançar no Acordo de Paris são como andar de bicicleta
Negociadores climáticos se reúnem esta semana em Bonn, Alemanha, para desenvolver um livro de regras do Acordo de Paris e avaliar o fortalecimento das metas climáticas. Eles não podem escolher apenas um desses temas; é preciso ter duplo foco. É como andar de bicicleta: as duas rodas têm que mover para frente.
Este artigo foi escrito por David Waskow, Yamide Dagnet, Eliza Northrop e Joe Thwaites e originalmente postado no WRI Insights.
Neste ano crucial para avanço da ação climática, o centro das atenções está no processo para transformar o Acordo de Paris em realidade. Negociadores climáticos reunidos esta semana em Bonn, na Alemanha, devem focar em dois aspectos: o desenvolvimento de um livro de regras para implementar o histórico acordo e uma avaliação sobre como fortalecer a ação climática para que o mundo consiga cumprir suas metas. Eles não podem escolher um ou outro aspecto; é preciso focar nos dois pontos para se ter sucesso em ação climática em 2018. É como andar de bicicleta: as duas rodas precisam girar para que a bicicleta ande para a frente.
O sucesso depende de dois resultados: primeiro, os países precisam concordar com diretrizes robustas para o Acordo de Paris – que ficaram conhecidas como “Paris Rulebook”, ou o “livro de regras”; e segundo, eles precisam mostrar que estão prontos para aprimorar seus compromissos nacionais climáticos até 2020.
Esses resultados estão intrinsicamente ligados e são igualmente essenciais. Sinais claros de que os países estão prontos para aumentar a ambição em 2020 são importantes para demonstrar que Paris está de fato mobilizando a ação necessária. E o livro de regras trará clareza sobre como os países apresentarão novos compromissos e irão reportar o progresso, gerando a confiança necessária para todos possam fortalecer seus compromissos.
As discussões em Bonn vão preparar o terreno para esses resultados. Dois elementos estão no topo da agenda: as negociações do livro de regras de Paris e o Diálogo Talanoa sobre ambição climática.
Com apenas sete meses faltando para a COP 24 em Katowice, na Polônia, onde o “livro de regras” deve ser adotado em dezembro, negociadores precisam dobrar seus esforços. Um conjunto de regras robusto e transparente é crucial para manter a confiança entre os países e avançar na ação climática de maneira efetiva e justa. Para fazer isso, as Partes do Acordo de Paris precisam manter a visão do pacto criando regras que aplicam tanto para nações desenvolvidas quanto para os países em desenvolvimento, além de permitir certa flexibilidade para nações mais vulneráveis. Enquanto isso, o progresso deve ser equilibrado entre os vários elementos do livro de regras, muitos dos quais estão interligados.
Para garantir o progresso das negociações sobre o livro de regras, um resultado importante de Bonn será assegurar que os países tenham mandato para fazer um rascunho do texto que será negociado no fim do ano.
Preparar o terreno para o Diálogo de Talanoa
O Diálogo de Talanoa também é uma prioridade central em Bonn, onde representantes dos países e de organizações não-governamentais selecionadas farão a primeira avaliação coletiva do Acordo de Paris, examinando o estado do progresso na redução de emissões e as oportunidades de fortalecer a ação climática. Enquanto se espera que as partes interessadas compartilhem histórias e lições aprendidas, é crítico que essas discussões identifiquem e gerem oportunidades para ação concreta para conseguir atingir a mudança necessária. Em sua essência, o processo de Talanoa precisa preparar o terreno para que os ministros possam apresentar na COP 24 novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) até 2020.
Outra dimensão importante dessas negociações inclui as questões envolvendo a ação climática pré-2020, entre elas acelerar os esforços de mitigação e mobilizar o financiamento em mitigação e adaptação para ajudar países em desenvolvimento a enfrentar as mudanças climáticas. É preciso reconhecer os compromissos de longa data e as expectativas de ação pré-2020, um assunto muito debatido nas negociações no ano passado.
Financiamento também será um tópico-chave nas discussões. Além do nível de apoio financeiro que será providenciado, os países em desenvolvimento também estão pedindo por um acesso mais fácil e maior previsibilidade das finanças climáticas, com equilíbrio entre os fluxos de financiamento para mitigação e adaptação. A previsibilidade é amplamente reconhecida como um princípio para a efetividade, já que permite que os países financiados se planejem e implementem a ação climática; o desafio é identificar informações úteis para aumentar a previsibilidade e ao mesmo tempo respeitar os procedimentos dos doadores. Enquanto isso, as conversas no Suva Expert Dialogue sobre apoio (incluindo finanças) na área de perdas e danos ressaltarão a necessidade de fortalecer a resiliência contra impactos adversos das mudanças climáticas enfrentadas pelos mais vulneráveis.
Há muitos sinais promissores durante o desenrolar de 2018. Sete países europeus pediram que a União Europeia (UE) adote metas de redução de emissões em linha com o Acordo de Paris, e Holanda e Suécia pediram que a UE fortaleça sua NDC para 2020. Outros países, como Nova Zelândia e Reino Unido, se comprometeram a se tornar neutro em carbono na segunda metade do século. Cerca de 400 empresas se comprometeram com metas para reduzir emissões, e a Organização Marítima Internacional decidiu reduzir significativamente as emissões de navios até o meio do século.
A pressão para se conseguir um resultado forte deve aumentar durante o ano, com momentos como o Petersberg Dialogue, o Ministerial Meeting on Climate Action em Montreal, no Canadá, o Global Climate Action Summit na Califórnia, EUA, e o Climate Vulnerable Forum, destacando oportunidades para fortalecer a ação, dar escala ao apoio, melhorar a liderança e criar regras mais robustas. O mundo olhará para os líderes e tomadores de decisão na expectativa que eles avancem e garantam compromissos climáticos mais robustos e ambiciosos nos próximos anos.