Com urbanismo tático, cidades enfrentam a Covid-19 priorizando pedestres e ciclistas
Ciclovias criadas da noite para o dia, vias convertidas em zonas calmas, calçadas estendidas às pressas – tudo para acomodar a necessidade de mobilidade urbana em um cenário de pandemia. A Covid-19 tem gerado grandes intervenções urbanas, muitas vezes sem a possibilidade de grande planejamento ou investimento. Cidades convertem-se em laboratórios de experiências que podem trazer benefícios durante a crise e legar um mundo mais sustentável quando o pior passar.
"Já houve melhor momento para experimentar com o fechamento de ruas?", indagou o The New York Times em sua mais recente edição dominical. Como se fosse uma resposta a propostas de novas rotas para mobilidade ativa e espaços públicos seguros endossadas pelo jornal nova-iorquino, o prefeito Bill de Blasio anunciou no dia seguinte um plano para transferir de veículos motorizados a pedestres e ciclistas o direito de uso de 160 km de vias da megalópole.
De intervenções mais pontuais, que se beneficiam do baixo custo e da rápida implementação do urbanismo tático, a planos mais ambiciosos, cidades em todos os continentes têm anunciado medidas contingenciais para oferecer mais segurança nos deslocamentos durante a pandemia e à medida que iniciam a flexibilização do isolamento social. A OMS recomenda aos que precisam se deslocar durante a crise – como os trabalhadores de serviços essenciais – a opção por bicicleta ou caminhada "sempre que possível".
Intervenções pontuais para facilitar o distanciamento
Uma das melhorias imediatas que as cidades podem fazer nesse cenário é oferecer mais espaço para que as pessoas possam manter distância segura umas das outras nos deslocamentos a pé ou de bicicleta. Em Berlim, por exemplo, a prefeitura tem alargado ciclofaixas usando fita e tinta para que ciclistas possam manter uma maior distância entre si.

Berlim têm usado tinta – e balizadores em alguns casos – para demarcar alargamento de ciclovias (foto: BA-FK)
A bicicleta tem sido reconhecida como transporte capaz de frear o contágio. Mas também é importante prover espaços adequados para os pedestres. No Brasil, onde 36% dos deslocamentos diários da população são realizados a pé, pelo menos 20% das vias não dispõem de calçadas, quanto menos calçadas adequadas, que respeitem a norma de 1,2m de faixa livre para pedestres. Como quem precisa se deslocar pode manter distanciamento seguro com calçadas tão estreitas quanto o alcance do vírus?
A resposta é óbvia: com calçadas alargadas. Comuns em intervenções de urbanismo tático, as extensões de calçada podem ser implementadas com tinta e tachões demarcando o novo desenho do pavimento. É uma forma rápida e eficiente de enfrentar desafios impostos pela pandemia e de testar novos perfis de ruas que priorizem pedestres e ciclistas e contribuam para cidades mais vibrantes e acolhedoras, e menos poluídas. Dublin e Brookline (EUA) são exemplos de cidades que fecharam pistas em vias movimentadas para estender o espaço para pedestres. Um levantamento do especialista em urbanismo tático Mike Lydon lista dezenas de iniciativas semelhantes.
Oakland, na Califórnia, foi pioneira ao anunciar no início do mês o fechamento de 10% das vias da cidade para recreação, convertidas em ruas calmas. Cidades têm fechado para carros vias à beira-mar para garantir oportunidades de distanciamento, embora autoridades queiram evitar passar a mensagem de que seja correto socializar ou se exercitar junto a outras pessoas na rua no momento atual.
Crise acelera implementação de planos ambiciosos
A retomada pós-Covid-19 trará novos desafios. Gestores e especialistas temem que a experiência da pandemia e o risco associado a espaços fechados gerem aumento do uso de carros e motos em detrimento do transporte coletivo – tudo que se tem lutado há anos para evitar.
Muitas cidades que incluem em seu planejamento a priorização à mobilidade ativa aproveitam o momento para acelerar a transformação. À medida que se prepara para flexibilizar o distanciamento social, Lima decidiu concluir em três meses a implementação do plano cicloviário previsto para os próximos 5 anos, adicionando 301 quilômetros de ciclovias temporárias que devem ser formalizadas posteriormente. A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, promete acelerar a transformação da Cidade Luz em uma "cidade de 15 minutos" – promessa de sua campanha para reeleição – implementando 650 km de ciclorrotas a tempo da reabertura de Paris, em 11 de maio.
O governo da Nova Zelândia lançou o programa Innovating Streets for People para financiar projetos de urbanismo tático que favoreçam vizinhanças mais vibrantes, caminháveis e acessíveis. Inicialmente fixado em cerca de US$ 4,3 milhões, o programa pode chegar a US$ 65 milhões, segundo anúncio recente da Ministra dos Transportes neo-zelandesa, Julie Anne Genter. Para garantir a verba, os conselhos distritais (grupos de indivíduos, membros da comunidade e organizações da sociedade civil) devem demonstrar como os projetos podem ser convertidos em mudanças permanentes, gerando benefícios para as vizinhanças e para a cidade em que estarão inseridos.
Transformação deve ser consolidada em planos e ações
Passada a crise da Covid-19, será fundamental que as cidades avaliem o resultado das intervenções para definir quais podem ser formalizadas. O momento que vivemos tem evidenciado a importância de planejamentos que integrem diferentes estratégias na construção de cidades mais sustentáveis e resilientes, combatendo a poluição do ar, as emissões de carbono e outras externalidades negativas da mobilidade baseada no transporte motorizado individual.
WRI Brasil apoia diversas cidades brasileiras em soluções com urbanismo tático, como esta no bairro Santana, São Paulo (fotos: João Castellano, Victor Moriyama e Joana Oliveira/WRI Brasil)
No Brasil, o WRI Brasil tem trabalhado com cidades em intervenções de segurança viária e na implementação de Ruas Completas usando o urbanismo tático. São Paulo, Porto Alegre, Campinas e Salvador estão entre as cidades que adotaram medidas recentes nesse sentido. É preciso dar escala a essas ações. Quem sabe as cidades brasileiras não possam fazer do momento crítico que vivemos uma oportunidade de construir cidades mais acolhedoras e seguras na transição da crise para o "novo normal".