Nos dias de chuva, Meliana Mei caminha por uma passarela elevada de sua casa, em Makassar, Indonésia, até o mercado. A água é coletada e escoada em valas abaixo da estrutura, proporcionando a ela segurança para chegar ao seu destino. “Nosso beco costumava alagar sempre que chovia, dificultando a locomoção”, relata Mei. “Agora posso ir ao mercado com mais facilidade, usando as passarelas, que são limpas e acessíveis.”

Mei está entre os 40% dos 1,7 milhão de habitantes de Makassar que vivem em assentamentos informais propensos a inundações, bairros caracterizados por moradias precárias, falta de posse segura da terra e acesso inadequado a serviços básicos como água, saneamento e vias.

Há apenas alguns anos, as mesmas chuvas representavam um cenário bem diferente nesses bairros. A água das enchentes avançava pelas vielas estreitas e entrava nas casas nas áreas mais baixas, transformando deslocamentos cotidianos em um desafio. Os moradores precisavam atravessar com a água na altura da cintura, equilibrando-se em tábuas improvisadas de bambu ou pagando pequenas quantias para atravessar passagens alagadas em jangadas improvisadas. As crianças costumavam brincar na água parada que permanecia por muito tempo após as tempestades, sem saber do risco dos contaminantes fecais provenientes dos sistemas de esgoto danificados e do transbordamento de drenagens.

Makassar é uma cidade costeira que enfrenta riscos de inundação devido a chuvas intensas e ao mar – riscos que se tornam ainda mais frequentes com as mudanças climáticas. Nesse contexto, circular pelo bairro, cuidar da família ou simplesmente sair de casa pode significar enfrentar água contaminada e condições difíceis de locomoção.

Fotos de antes e depois mostram melhorias nos pontos de acesso e nas passarelas em uma comunidade de Makassar.
Fotos de antes e depois mostram melhorias nos pontos de acesso e nas passarelas em uma comunidade de Makassar. (Foto: RISE)

Mas o cenário tem melhorado graças a novas soluções do programa Revitalizing Informal Settlements and Environments (RISE, na sigla em inglês; em português, “Revitalizando Ambientes e Assentamentos Informais”). No centro da iniciativa está a ideia de que comunidades multigeracionais já estabelecidas não são problemas a serem removidos ou realocados, mas lugares de profundas inovações em infraestrutura. Conduzido pela Universidade Monash, de Melbourne, Austrália, e trabalhando em conjunto com moradores e o governo municipal, o programa tem como objetivo melhorar a saúde ambiental por meio de infraestrutura de água e saneamento, além de promover outras melhorias comunitárias. Tudo isso é realizado com a preservação dos bairros, evitando rupturas nas redes sociais, nos meios de subsistência e nas rotinas cotidianas.

Transformando a vida cotidiana

Os impactos das melhorias em infraestrutura implementadas pelo RISE são visíveis em seis dos assentamentos informais de Makassar. Atualmente, mais de 1.400 moradores são beneficiados por melhorias em saneamento, drenagem e infraestrutura de acesso, e outras seis mil pessoas são indiretamente beneficiadas a partir de uma melhor saúde ambiental e espaços públicos de qualidade.

Foram instalados centenas de banheiros conectados a sistemas de saneamento nos bairros. Áreas de tratamento com zonas úmidas filtram águas residuais, tanques de captação de água da chuva melhoram o acesso doméstico à água e as melhorias de drenagem ajudam a controlar enchentes. Foram construídos quase três mil metros quadrados de passarelas elevadas que agora permitem que os moradores se desloquem com segurança por bairros sujeitos a inundações.

Para os moradores, essas mudanças são concretas. Além das melhorias em saneamento, o projeto também reformulou os espaços públicos dentro dos assentamentos. As áreas úmidas funcionam também como espaços ajardinados onde as pessoas se reúnem, enquanto as passarelas elevadas servem tanto como proteção contra enchentes quanto como áreas de convivência.

 

A integração de espaços públicos com a infraestrutura de saneamento ajudou a melhorar a vida cotidiana nos assentamentos informais de Makassar.
A integração de espaços públicos com a infraestrutura de saneamento ajudou a melhorar a vida cotidiana nos assentamentos informais de Makassar. (Foto: WRI Ross Center Prize for Cities)

“Em geral, o saneamento não é o que as comunidades pensam primeiro”, afirma Diego Ramirez-Lovering, codiretor do RISE e professor na Universidade Monash. “Elas querem lugares onde possam se reunir e socializar, por isso projetamos uma infraestrutura que também cria espaços para a vida comunitária.”

Interrompendo os caminhos da contaminação

Mudar a forma como as pessoas se deslocam por esses bairros exigiu mudar a forma como a água se move por eles. “O principal problema aqui era a água suja, que causava diarreia”, explicou Tajuddin, líder comunitário em um dos assentamentos (como muitos indonésios, ele possui apenas um nome). “Em Makassar, chamam isso de ‘camar’. É o que afeta as crianças, pois são mais suscetíveis a problemas de saúde.”

Em assentamentos construídos ao longo de cursos d’água e em terrenos baixos, a drenagem deficiente e a fragilidade dos sistemas de saneamento faziam com que a água da chuva e o esgoto se misturassem, contaminando casas, ruas e espaços compartilhados.

O RISE tem solucionado esses problemas com a implementação de sistemas pouco utilizados nesses assentamentos informais densos. Ao descentralizar os sistemas de saneamento por meio da construção de áreas úmidas, do uso de redes de esgoto pressurizadas inteligentes e de tanques sépticos comunitários cobertos, os novos sistemas de saneamento interrompem a trajetória da poluição por esses bairros.

“O RISE usa a natureza como infraestrutura nesse processo”, explica Ramirez-Lovering. As águas residuais são conduzidas por zonas úmidas, onde o solo, raízes e microrganismos ajudam a filtrar contaminantes, antes de retornarem com segurança ao meio ambiente. Melhorias na drenagem e na gestão da água da chuva também ajudam a reduzir enchentes e manter a água contaminada longe das residências.

Essas abordagens são particularmente importantes na paisagem plana e alagada de Makassar. “Soluções tradicionais de saneamento simplesmente não funcionam em ambientes densos assim”, afirma Ramirez-Lovering. “Precisávamos de alternativas eficientes nesse contexto.”

As intervenções do RISE ajudam a solucionar desafios de infraestrutura hídrica incorporando o planejamento de espaços comunitários.
As intervenções do RISE ajudam a solucionar desafios de infraestrutura hídrica incorporando o planejamento de espaços comunitários. (Foto: WRI Ross Center Prize for Cities)

Projetando a infraestrutura junto às comunidades

Embora as tecnologias por trás do RISE sejam inovadoras, o que realmente torna essa iniciativa única é a forma como o programa incorpora a participação da comunidade em sua atuação. Desde o início, a equipe do RISE trabalhou diretamente com os moradores, organizando discussões e oficinas nas quais os residentes ajudaram a definir o que seria construído e onde.

“Passamos muito tempo ouvindo”, conta Intan Putri, integrante da equipe de engajamento do RISE. “Os moradores entendem seus bairros melhor do que qualquer pessoa – sabem por onde a água flui, por onde as pessoas caminham e quais espaços são mais importantes para a comunidade.”

Moradores, lideranças locais e representantes do governo tiveram participação ativa em todas as etapas do projeto e da implementação.
Moradores, lideranças locais e representantes do governo tiveram participação ativa em todas as etapas do projeto e da implementação. (Foto: RISE)

Na prática, isso significou passar semanas dentro de cada assentamento, trabalhando lado a lado com os moradores. Crianças, pais, idosos e lideranças locais participaram de conversas sobre padrões de inundação e desafios de saneamento e relataram como se deslocam pelos bairros. Por meio desse processo, os moradores ajudaram a determinar os locais em que as passarelas elevadas tornariam o deslocamento mais seguro durante enchentes e sugeriram áreas para a implementação de zonas úmidas, canais de drenagem e instalações sanitárias.

“Não é o planejador que decide onde a infraestrutura deve ser instalada”, reforça Ihsan Latief, que trabalha nos componentes de infraestrutura com a equipe do RISE. “É a comunidade que decide o lugar certo para as instalações.”

Os resultados dessa colaboração agora são visíveis nos bairros onde o RISE atuou. Passarelas elevadas conectam as casas às principais vias da cidade, enquanto zonas úmidas e melhorias na drenagem controlam a água nos pontos em que antes ela permanecia acumulada. Essas intervenções também refletem costumes locais e a vida cotidiana. As zonas úmidas foram posicionadas com sensibilidade a práticas culturais e crenças locais sobre como os espaços devem ser organizados – em algumas áreas, por exemplo, estão situadas em frente às casas para servir como barreiras sutis contra espíritos. As instalações dos sistemas de saneamento foram feitas com quem os moradores se sentem mais confortáveis em compartilhá-las. A pedido dos moradores, também foram incluídos elementos de paisagismo, áreas de convivência e varais, facilitando e melhorando atividades cotidianas.

Os moradores também foram treinados para monitorar os sistemas de saneamento, manter a vegetação e cuidar da infraestrutura compartilhada. Programas como o KePoLink, uma rede de agentes ambientais comunitários, ajudam a manter a comunicação com as agências municipais e fortalecem o relacionamento dos moradores com o governo local.

“Envolvemos a comunidade para que, depois da implementação das infraestruturas, eles entendam o sistema e possam mantê-lo por conta própria”, ressalta Ikram, engenheiro sênior do projeto. Ao aliar conhecimento local e expertise técnica, o RISE transforma a infraestrutura em algo que fortalece o senso de pertencimento nas comunidades.

Envolver os moradores em todo o processo fortalece o senso de pertencimento sobre as novas paisagens e infraestruturas.
Envolver os moradores em todo o processo fortalece o senso de pertencimento sobre as novas paisagens e infraestruturas. (Foto: RISE)

Construindo parcerias duradouras

Para que essas melhorias perdurem, a colaboração com o governo municipal de Makassar tem sido tão importante quanto a colaboração com as comunidades.

Desde o início, o RISE trabalhou em conjunto com órgãos municipais, incluindo os departamentos de obras públicas e de saneamento e lideranças distritais. Autoridades da cidade contribuíram para o envolvimento comunitário, auxiliaram em questões relativas à posse da terra – um desafio comum em bairros informais – e deram início aos preparativos para a manutenção de longo prazo da infraestrutura.

O objetivo era garantir que as mudanças promovidas pelo RISE não fossem apenas um projeto-piloto de curto prazo, mas se tornassem parte da abordagem mais ampla da gestão municipal para promover a melhoria de assentamentos informais.

O RISE auxilia na transição das operações e manutenção para as equipes municipais por meio de treinamentos e oficinas de capacitação.
O RISE auxilia na transição das operações e manutenção para as equipes municipais por meio de treinamentos e oficinas de capacitação. (Foto: RISE)

A responsabilidade pela manutenção das infraestruturas implementadas pelo RISE agora está sendo transferida para a cidade de Makassar. O programa oferece capacitação às equipes municipais para que assumam a operação e a gestão dos sistemas. Para embasar esse processo, a equipe do RISE desenvolveu guias e estruturou um grupo de trabalho que mantém cooperação contínua entre a cidade e o programa.

O RISE também introduziu “contratos visuais”, desenvolvidos com comunidades e órgãos municipais, que traduzem planos técnicos em ilustrações acessíveis, detalhando responsabilidades de construção, uso e manutenção da infraestrutura. Isso ajuda a garantir que todos entendam como os sistemas funcionam e quem é responsável por sua manutenção.

Juntas, essas medidas e o trabalho conjunto ajudam a garantir que as novas passarelas, zonas úmidas e sistemas de saneamento permaneçam como parte do futuro urbano de Makassar para além da fase inicial do projeto.

Unindo pesquisa e transformações reais

A diferença que o RISE fez nessas comunidades é mensurável. O projeto está ancorado em um ensaio controlado randomizado em 12 assentamentos de Makassar. Seis receberam melhorias de infraestrutura, enquanto seis serviram como áreas de comparação, permitindo que os pesquisadores avaliem como as melhorias ambientais impactaram a saúde ao longo do tempo.

O uso dessa abordagem – mais comum na avaliação de vacinas e medicamentos – para infraestrutura urbana é raro. Assentamentos informais são ambientes complexos – não existem dois bairros exatamente iguais, o que dificulta a seleção de locais comparáveis e a manutenção de cenários consistentes de pesquisa.

A equipe do RISE monitora indicadores ambientais e de saúde para acompanhar como as intervenções do projeto influenciam a saúde pública.
A equipe do RISE monitora indicadores ambientais e de saúde para acompanhar como as intervenções do projeto influenciam a saúde pública. (Foto: WRI Ross Center Prize for Cities)

Apesar desses desafios, o estudo tem gerado evidências importantes. Os pesquisadores envolvidos acompanham a qualidade da água, a contaminação ambiental e indicadores de saúde para entender melhor como as melhorias de saneamento, drenagem e infraestrutura baseada na natureza influenciam a saúde pública.

Para Makassar e outras cidades que enfrentam desafios semelhantes, essas evidências são fundamentais para embasar políticas públicas. Ao demonstrar resultados mensuráveis em saúde, o RISE comprova a importância do investimento em infraestruturas resilientes ao clima, implementadas e mantidas junto às comunidades nos assentamentos informais

Um novo modelo para a transformação urbana

O impacto do RISE já foi além dos assentamentos onde começou. Em Makassar, o governo municipal identificou 30 assentamentos informais como áreas prioritárias para futuras melhorias (sem incluir os seis que já fizeram parte do experimento inicial como áreas de comparação e também receberão as melhorias). A cidade também busca formas de integrar as abordagens do RISE ao planejamento urbano de longo prazo e aos orçamentos municipais de infraestrutura.

O modelo também está sendo adaptado em outras cidades costeiras e insulares. Em Suva, Fiji, locais de demonstração têm aplicado abordagens participativas e sistemas de saneamento baseados na natureza desenvolvidos pelo RISE. Além disso, os métodos do projeto servem de referência para o Programa de Pesquisa-Ação do Citarum, em Java Ocidental, Indonésia, onde estratégias inspiradas no RISE vêm sendo utilizadas para melhorar o saneamento e a gestão de resíduos em comunidades que vivem ao longo do altamente poluído rio Citarum.

O que está se disseminando não é apenas tecnologia, mas sim um processo: métodos de design participativo, ferramentas de governança e uma abordagem baseada em evidências que permitem que comunidades, pesquisadores e governos municipais trabalhem juntos para melhorar a saúde ambiental.

Como observou Ramirez-Lovering, a infraestrutura por si só não transforma assentamentos informais: “O que importa é projetar sistemas que as comunidades compreendam, confiem e sejam capazes de manter a longo prazo”.

Em Makassar, essa ideia começou a criar raízes. Passarelas elevadas, zonas úmidas e sistemas de drenagem agora conduzem o fluxo da água em bairros que antes sofriam com inundações e contaminação. Contudo, talvez a mudança mais significativa seja na forma como os assentamentos são vivenciados e compreendidos pelos próprios moradores. Em vez de serem vistos como obstáculos ao desenvolvimento, esses locais estão se tornando polos onde novos modelos de resiliência climática, saúde pública e transformação urbana liderada pela comunidade são testados e consolidados.


 

O projeto RISE, em Makassar, foi um dos cinco finalistas do Prêmio WRI Ross Center para Cidades 2025-2026, que reconhece projetos e iniciativas que promovem cidades saudáveis. O resultado foi anunciado em abril de 2026 e o vencedor do prêmio foi a iniciativa "Move As One Coalition", desenvolvida em Manila, nas Filipinas. 

 

Este artigo foi publicado originalmente no Insights.