Como um “Super El Niño” pode afetar os alimentos, florestas e a água?
Perguntamos a quarto especialistas como o El Niño desse ano pode ser diferente de eventos anteriores
A escassez de água pode se intensificar Como um Super El Niño pode afetar o abastecimento de água? O El Niño altera os padrões atmosféricos, podendo provocar enchentes em algumas regiões e secas em outras. Embora seus impactos sejam difíceis de prever com precisão, as áreas que devem enfrentar seca este ano incluem o Caribe, a América Central, o norte do Brasil, o centro e o norte da Índia, o centro e o sul da África, a Indonésia, as Filipinas e a Austrália. Essas condições podem reduzir a disponibilidade de água, afetar a agricultura e aumentar a demanda sobre reservatórios e aquíferos.
O fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS), conhecido como El Niño, ocorre naturalmente a cada dois a sete anos, tornando algumas partes do mundo mais secas e outras mais chuvosas. Mas o El Niño deste ano está se configurando como um evento diferente.
Cientistas preveem uma probabilidade cada vez maior de um “Super El Niño”, com as temperaturas do oceano Pacífico mais de 2°C acima da média, alterando as condições atmosféricas de forma mais intensa do que o habitual. Os resultados podem5 ser impactos mais fortes e duradouros em diversas regiões do mundo, na forma de secas, enchentes, ciclones, calor extremo e outros eventos.
Embora os Super El Niños ocorram, em média, a cada 10 a 15 anos, os efeitos do evento deste ano podem ser potencializados pelas condições atuais. Em primeiro lugar, o clima mais quente, seco e instável provocado pelas mudanças climáticas em curso pode agravar os impactos do El Niño. Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados. Além disso, os sistemas alimentares em todo o mundo já enfrentam pressões decorrentes da guerra entre Estados Unidos e Irã e da consequente escassez de combustíveis e fertilizantes.
A seguir, especialistas do WRI comentam o que um Super El Niño pode implicar para água, alimentos e florestas, além de explicar como as comunidades podem se preparar para seus impactos.
A escassez de água pode se intensificar
Especialistas entrevistados:
![]() | Tom Pickerell, Diretor Global, Programa de Oceanos |
![]() | Liz Saccoccia, Associada de Segurança Hídrica |
Como um Super El Niño pode afetar o abastecimento de água?
O El Niño altera os padrões atmosféricos, podendo provocar enchentes em algumas regiões e secas em outras. Embora seus impactos sejam difíceis de prever com precisão, as áreas que devem enfrentar seca este ano incluem o Caribe, a América Central, o norte do Brasil, o centro e o norte da Índia, o centro e o sul da África, a Indonésia, as Filipinas e a Austrália. Essas condições podem reduzir a disponibilidade de água, afetar a agricultura e aumentar a demanda sobre reservatórios e aquíferos.
Ao mesmo tempo, o El Niño também pode trazer chuvas acima da média e inundações para outras partes do mundo. Segundo o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF, na sigla em inglês), as regiões que podem registrar condições mais úmidas este ano incluem o sul dos Estados Unidos, partes do Peru e do Equador, o leste da África e áreas do Oriente Médio e da Ásia Central. O aumento das chuvas pode reabastecer reservatórios de forma temporária e melhorar a oferta de água em alguns locais, mas também pode sobrecarregar a infraestrutura e aumentar o risco de enchentes.
Um Super El Niño pode intensificar esses eventos climáticos extremos, provocando tempestades, enchentes e secas mais severas do que em um El Niño típico. Regiões que já enfrentam estresse hídrico podem sofrer quedas ainda mais acentuadas na disponibilidade de água. Já as áreas propensas a enchentes podem registrar precipitações ainda mais severas.
Como as comunidades podem se preparar melhor para os impactos do El Niño sobre os recursos hídricos?
Como as previsões antecipam a ocorrência desses eventos, governos e organizações têm a chance de se preparar para secas e enchentes.
Durante o El Niño de 2023-2024, por exemplo, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apoiou ações preventivas, como a recuperação e construção de sistemas de irrigação, reforço das estruturas de proteção contra enchentes e concessão de transferências de renda para que famílias pudessem evacuar áreas de risco antes das inundações. Outras iniciativas incluíram a distribuição de sementes de variedades de ciclo curto e resistentes à seca, ajudando os agricultores a se adaptarem às novas condições.
Medidas prévias como essas podem ajudar as comunidades a proteger seus recursos hídricos, reduzir perdas econômicas e fortalecer a resiliência diante de futuros eventos climáticos.
Mudanças climáticas e guerras podem intensificar os impactos do El Niño sobre os sistemas alimentares
Especialista entrevistado:
![]() | Mike Badzmierowski Gerente de Políticas Agrícolas dos Estados Unidos |
Como o El Niño afeta a produção de alimentos?
Sabemos que o El Niño afeta a produção de alimentos porque altera a circulação atmosférica global, influenciando temperaturas, regimes de chuva, secas, enchentes e tempestades em todo o mundo. No entanto, o conhecimento sobre a relação entre a produção de alimentos e o El Niño – assim como outros grandes padrões climáticos – ainda está em estágio inicial. Sabemos que o ENOS (El Niño–Oscilação Sul) exerce influência, mas ainda há muitas incertezas, e os impactos variam consideravelmente entre as diferentes regiões.
O que podemos afirmar é que, historicamente, o El Niño “desloca” os riscos para a produção de alimentos entre diferentes regiões. Alguns locais são beneficiados, outros são prejudicados, e o efeito médio global pode mascarar impactos locais extremamente severos.
As secas provocadas pelo El Niño podem causar perdas na produção de alimentos em algumas regiões – principalmente em áreas de baixa renda, que dependem da agricultura de sequeiro e de importações e já enfrentam insegurança alimentar. Em partes da África Austral, por exemplo, eventos de El Niño costumam reduzir a produção de cereais devido a estações de cultivo mais quentes e secas, o que aumenta a necessidade de importações. No entanto, a magnitude desses impactos depende das condições locais de chuva, temperatura, calendário agrícola, umidade inicial do solo, resposta dos governos, dinâmica dos mercados e da interação com outros fenômenos climáticos, como o Dipolo do Oceano Índico (IOD), que pode reforçar ou amenizar os efeitos do El Niño.
O que pode ser diferente no Super El Niño?
Caso ocorra um El Niño forte ou muito forte, ele poderá ser diferente dos eventos anteriores em um aspecto fundamental: acontecerá em um planeta mais quente. Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados. Esse fator é relevante porque uma temperatura média mais elevada torna um mesmo choque climático potencialmente mais destrutivo. Temperaturas mais altas deixam a atmosfera mais “sedenta”, retirando mais umidade do solo e das plantas. Como consequência, solos e lavouras secam mais rápido, o estresse térmico sobre culturas agrícolas e rebanhos aumenta e as secas se tornam mais severas, mesmo quando a redução das chuvas é semelhante à observada em episódios anteriores de El Niño.
Essa tendência de aquecimento também torna mais complexa a situação das regiões que podem receber mais chuva. Mais precipitação nem sempre significa maior disponibilidade ou armazenamento de água. Um estudo recente publicado na revista Nature mostra que chuvas mais concentradas podem, na verdade, reduzir o armazenamento de água em ambientes terrestres. Quando a chuva ocorre em episódios muito intensos, uma parcela maior da água permanece na superfície e evapora antes de infiltrar no solo e reabastecer aquíferos. Assim, áreas agrícolas que recebam chuvas intensas durante um evento de El Niño não necessariamente serão mais resilientes do que regiões mais secas.
Considerando a escassez de combustíveis e fertilizantes provocada pelo conflito entre Estados Unidos e Irã, como um Super El Niño pode afetar os sistemas alimentares?
As interrupções no fornecimento de combustíveis e fertilizantes relacionadas ao conflito entre Irã e Estados Unidos reduzem a capacidade de resposta dos sistemas alimentares. Um El Niño forte ou muito forte aumentaria o risco de secas, ondas de calor, enchentes, degradação de pastagens, impactos sobre a pesca e perdas agrícolas em determinadas regiões do mundo. Esses riscos são mais graves quando os agricultores dispõem de menos recursos para reagir.
Os fertilizantes ficaram menos disponíveis e mais caros à medida que a guerra contra o Irã continua afetando os mercados de energia, o transporte marítimo e o comércio internacional desses insumos. O combustível é essencial em toda a cadeia alimentar, desde a produção de fertilizantes nitrogenados até o funcionamento de máquinas agrícolas, refrigeração, transporte e distribuição de produtos. Se o preço dos combustíveis e fertilizantes permanecer elevado, agricultores podem ser forçados a reduzir o plantio, aplicar menos fertilizantes ou enfrentar dificuldades para fazer p transporte dos alimentos, agravando a insegurança alimentar. Um possível El Niño histórico acrescentaria riscos de seca, calor extremo ou enchentes a um sistema que já se encontra fragilizado, aumentando a probabilidade de uma escassez real de alimentos.
Mesmo após o enfraquecimento do El Niño, seus efeitos podem continuar repercutindo ao longo da cadeia alimentar. A redução do uso de fertilizantes, colheitas ruins, perdas de rebanhos, o aumento do endividamento e a diminuição das economias das famílias podem comprometer a safra seguinte. Portanto, se o conflito entre Estados Unidos e Irã continuar afetando os mercados de combustíveis e fertilizantes, seus efeitos poderão agravar os impactos de um provável El Niño ao aumentar a pressão sobre os preços dos alimentos e dos insumos justamente nas regiões com menor capacidade de absorver esses custos.
Como tornar os sistemas alimentares mais resilientes ao El Niño e a outros abalos?
Mais do que nunca, é necessário fortalecer a cooperação internacional para garantir alimentos e assistência quando ocorrerem abalos locais e regionais, sejam eles provocados por eventos climáticos, questões geopolíticas ou pela combinação de ambos. No longo prazo, também é fundamental enfrentar as causas das mudanças climáticas que aumentam os riscos para os sistemas alimentares.
Na agricultura, isso significa reduzir as emissões de gases de efeito estufa decorrentes da produção de alimentos e do desmatamento e, ao mesmo tempo, ampliar a oferta de alimentos. No que diz respeito ao consumo, é essencial reduzir o desperdício de alimentos e o consumo de carne (em especial a bovina) nos locais onde esses índices são elevados, a fim de incentivar dietas com mais alimentos de origem vegetal. Também é necessário promover um uso mais eficiente de áreas agrícolas, água e fertilizantes – todos recursos finitos – na produção de alimentos. Atualmente, uma parcela significativa e cada vez maior de terras agrícolas, água e fertilizantes no mundo todo é destinada à produção de culturas voltadas para combustíveis, como milho para etanol e soja para biodiesel. Em um cenário no qual os eventos climáticos representam uma ameaça crescente à segurança alimentar, é cada vez mais difícil justificar esse uso.
Um Super El Niño pode provocar incêndios florestais mais devastadores
Qual é a relação entre o El Niño, as florestas e as mudanças climáticas?
As mudanças climáticas provocadas pelas atividades humanas são o principal fator responsável pelo aumento dos incêndios florestais em todo o mundo na última década. O El Niño intensifica esses efeitos ao alterar os padrões de chuva e elevar as temperaturas, trazendo condições mais quentes e secas e aumentando o risco de incêndios em algumas regiões, enquanto outras são expostas a chuvas e enchentes acima da média.
Entre esses impactos, os incêndios são os que representam a maior ameaça às florestas e ao carbono armazenado por elas. Nas áreas onde o El Niño provoca condições mais secas e quentes, ele reduz o limiar necessário para a ignição e acelera a propagação de incêndios florestais acidentais, intencionais ou de origem natural. Os incêndios resultantes podem causar danos que levam décadas para serem revertidos e liberar grandes quantidades de carbono, acelerando as mudanças climáticas e alimentando um ciclo perigoso que torna as florestas ainda mais vulneráveis ao fogo. Além dos incêndios, o aquecimento intensificado pelas secas associadas ao El Niño compromete a saúde das florestas e torna as árvores mais suscetíveis a insetos e patógenos.
A relação entre o El Niño e os incêndios florestais varia entre as regiões. O padrão mais claro e consistente ocorre na América do Sul, onde o fenômeno costuma reduzir as chuvas durante a estação úmida, deixando a estação seca seguinte ainda mais árida e propensa ao fogo. Isso pode ser observado principalmente na Amazônia, cujas florestas não são naturalmente adaptadas aos incêndios. Os dois episódios mais recentes de El Niño forte, em 2015-2016 e 2023-2024, resultaram em temporadas recordes de incêndios no Brasil. Em 2016 e em 2024, o fogo consumiu mais de 2,3 milhões de hectares de florestas no país – mais de quatro vezes a média anual registrada entre 2001 e 2025, segundo dados da plataforma Global Forest Watch, do WRI.
O El Niño também costuma provocar condições mais quentes e secas no Sudeste Asiático e na Austrália, aumentando o risco de incêndios. Nessas regiões, porém, os impactos são mais variáveis e dependem da interação com outros fenômenos climáticos cíclicos, como o Dipolo do Oceano Índico, que pode reforçar ou reduzir a influência do El Niño sobre os incêndios florestais. O El Niño forte de 2023-2024 também contribuiu para que o Canadá registrasse os invernos mais quentes de sua história, reduzindo a cobertura de neve e favorecendo condições secas no outono, fatores que culminaram na temporada de recordes de incêndios florestais de 2023.
Em relação aos incêndios florestais, o que se pode esperar em 2026 diante da possibilidade de um Super El Niño?
Mesmo antes que um possível Super El Niño se estabeleça, é provável que a atividade de incêndios já seja elevada em 2026. O ano caminha para figurar entre os mais quentes já registrados. Condições mais quentes e secas aumentam o risco de incêndios mesmo sem um El Niño totalmente consolidado.
A atividade de incêndios florestais na América do Sul provavelmente será elevada em 2026 à medida que o El Niño se desenvolver, mas os impactos mais severos costumam ocorrer cerca de um ano depois. Uma temporada potencialmente recorde de incêndios na Amazônia é mais provável no segundo semestre de 2027, quando a redução das chuvas durante a estação úmida deixará a estação seca seguinte ainda mais árida e propensa ao fogo.
Também é provável que o risco de incêndios aumente no Sudeste Asiático, na Austrália e no Canadá entre o final de 2026 e ao longo de 2027. O El Niño costuma trazer verões mais quentes e secos e reduzir a cobertura de neve durante o inverno no Canadá, como ocorreu em 2023. No Sudeste Asiático e na Austrália, os impactos dependerão, em parte, da forma como outros fenômenos climáticos, como o Dipolo do Oceano Índico, interagirão com o El Niño.
Embora as mudanças climáticas e as secas associadas ao El Niño favoreçam a propagação dos incêndios nas florestas, atividades como exploração madeireira, abertura de estradas para mineração e expansão agrícola costumam ser as principais causas do início desses incêndios.
Como reduzir os potenciais impactos do El Niño sobre os incêndios florestais?
Reduzir as emissões de carbono e o desmatamento continuam sendo as medidas mais importantes, em longo prazo, para enfrentar as mudanças climáticas e diminuir o risco de incêndios florestais. Restringir atividades como abertura de estradas, exploração madeireira e o desmatamento dentro de florestas naturais intactas também pode ajudar a reduzir os focos de ignição e prevenir grandes incêndios.
Uma colaboração mais estreita entre governos locais e comunidades indígenas também é essencial. Estudos mostram que a gestão territorial liderada por povos indígenas e o manejo comunitário do fogo ajudam a reduzir o material combustível disponível e, consequentemente, o risco de incêndios florestais. Além disso, programas nacionais voltados ao manejo do fogo e à prevenção de incêndios, bem como iniciativas educacionais junto à população, são fundamentais; no entanto, essas medidas ainda recebem pouco financiamento e são pouco desenvolvidas em grande parte do mundo. Sistemas de alerta precoce e tecnologias de detecção de incêndios por satélite, como os alertas do Global Forest Watch, também podem contribuir para respostas mais rápidas em regiões com poucos recursos.
Especialista do WRI que contribuiu para este artigo:
Sarah Parsons, Editora Sênior
Este artigo foi publicado originalmente no Insights.




