A ação climática pode ser uma das maiores fontes de empregos do mundo
Estamos em meio a uma profunda transformação econômica – uma mudança que moldará meios de subsistência e crescimento por décadas.
A ascensão da IA e da digitalização, as mudanças geopolíticas, o crescimento populacional desigual e a necessidade urgente de reduzir emissões e se adaptar aos impactos climáticos, juntos, estão remodelando as economias – e, principalmente, o mercado de trabalho. Diferente do que acontece com transformações geopolíticas e tecnológicas, que tendem a resultar em uma perda líquida de empregos, a transição para economias resilientes e de baixo carbono pode catalisar a expansão da força de trabalho.
Nossa nova pesquisa mostra que a transição de baixo carbono pode criar quase 375 milhões de empregos na próxima década em quatro setores: energia, construção, manufatura e agricultura. Essa estimativa representa um aumento de 20% no número de empregos nesses setores em um momento em que a IA e outros fatores ameaçam reduzir a força de trabalho.
Onde estarão as oportunidades de trabalho em uma economia resiliente de baixo carbono?
Os empregos relacionados à adaptação climática têm recebido muito menos atenção do que os do setor de tecnologias limpas (clean tech). No entanto, nossa pesquisa indica que eles podem representar 280 milhões do total de vagas. Com o aquecimento global, é urgente mobilizar uma força de trabalho robusta para reforçar a resiliência de lavouras e da pesca, revitalizar áreas críticas de biodiversidade e restaurar ecossistemas terrestres e de zonas úmidas. Da mesma forma, cresce a demanda por técnicos capazes de modernizar as edificações, tornando-as energeticamente mais eficientes e preparadas para enfrentar ondas de calor extremo e outras ameaças climáticas.
Como em toda grande transformação econômica, alguns setores se beneficiarão mais do que outros. Agricultura e uso da terra podem se tornar uma das maiores fontes de novos empregos, com a agricultura regenerativa e as soluções baseadas na natureza gerando 195 milhões de novas oportunidades de trabalho – o equivalente a cerca de 17% da força de trabalho atual do setor. Já o setor de construção pode apresentar o maior crescimento percentual, com 175 milhões de novos empregos – aproximadamente 70% da força de trabalho atual.
Trata-se de uma oportunidade significativa – mas não garantida.
Garantir centenas de milhões de bons empregos exige que governos e empresas invistam agora no desenvolvimento da força de trabalho. Isso significa capacitar trabalhadores com as habilidades necessárias para instalar turbinas eólicas e painéis solares, reformar edifícios para reduzir o consumo de energia, fazer a transição para a agricultura sustentável, entre outras atividades. Significa requalificar pessoas cujos empregos podem desaparecer, como trabalhadores do setor de combustíveis fósseis, e, ao mesmo tempo, criar novas oportunidades de trabalho para o futuro. Significa fomentar o empreendedorismo para viabilizar o crescimento dos empregos. E significa, ainda, corrigir erros do passado, ampliando a participação das mulheres e de outros grupos historicamente excluídos do mercado de trabalho.
Priorizar as pessoas e seus meios de subsistência pode gerar muito mais do que crescimento do emprego. Mais do que isso, é o que torna a transição para uma economia resiliente e de baixo carbono politicamente sustentável. Se essa transição for conduzida de forma correta, poderá fortalecer as economias, melhorar a coesão social e, ao mesmo tempo, combater as mudanças climáticas.
Embora a transição de baixo carbono tenda a gerar ganhos líquidos de emprego, envolverá uma rotatividade significativa. Um total de 630 milhões de trabalhadores poderão ser afetados por transições ocupacionais. Isso é particularmente evidente no setor de energia. Embora o setor deva adicionar 20 milhões de empregos em eletrificação, desenvolvimento de energias renováveis e expansão das redes elétricas, haverá menor demanda por empregos voltados à extração de combustíveis fósseis.
É por isso que investir no desenvolvimento da força de trabalho e na requalificação profissional é tão importante. Oportunidades e riscos precisarão ser geridos, já que novos empregos serão criados e outros serão eliminados em diferentes setores e regiões. A transição não pode deixar ninguém para trás – e, com a perspectiva de tantos novos empregos, isso não precisa acontecer.
Ainda assim, os países que potencialmente mais têm a ganhar em termos de criação de empregos também são os menos preparados para aproveitar essa oportunidade, incluindo muitos países de baixa renda na África. Isso acontece devido à estrutura de seus mercados de trabalho e à falta de qualificação adequada e de mecanismos de proteção social.
Diante desse cenário, reduzir as profundas lacunas de competências básicas, técnicas e transversais precisa ser uma prioridade. A dimensão do desafio impressiona: mais de 760 milhões de adultos com 15 anos ou mais não possuem habilidades básicas de leitura, escrita e matemática; além disso, 70% das crianças em países de baixa ou média renda ainda não conseguem ler aos 10 anos de idade. E, embora os dados sobre competências ainda sejam limitados, estimativas indicam que quase 75% dos jovens de 15 a 24 anos não estão no caminho para adquirir habilidades relevantes para o mercado de trabalho.
Enquanto essas competências fundamentais permanecem defasadas, a demanda por habilidades na economia verde aumentou 12% entre 2023 e 2024 – o dobro do ritmo da oferta.
Se não agirmos agora para nos preparar, o mundo caminhará a passos largos rumo a uma grave escassez de talentos, uma ameaça para a economia global que pode deixar um futuro mais seguro e sustentável fora do nosso alcance.
Por exemplo, estima-se que haverá um déficit de 14% no número de profissionais de energia renovável necessários até 2030. Esse déficit pode frear consideravelmente a implementação de tecnologias de baixo carbono e adiar a redução de emissões. Com o tempo, esses atrasos podem resultar em um maior acúmulo de poluentes, elevando o risco de um aquecimento adicional de até 0,7°C. Cada décimo de grau faz diferença, pois intensifica o risco de inundações, secas, incêndios florestais e outros impactos perigosos.
Capacitando os profissionais do futuro
Então, o que é necessário para capacitar os profissionais e transformar a força de trabalho de forma positiva enquanto enfrentamos as mudanças climáticas?
Em primeiro lugar, governos e empresas precisam colocar os meios de subsistência das pessoas no centro de suas estratégias econômicas e climáticas. É necessário aprimorar dados e análises sobre o mercado de trabalho e mobilizar recursos e uma ação política mais integrada. Por enquanto, nada disso acontece em escala. Apenas metade dos planos climáticos nacionais dos países (ou NDCs) menciona estratégias de capacitação profissional; e apenas 1% apresenta meios concretos de financiá-las. As estratégias corporativas também são escassas quando se trata de desenvolver habilidades para a economia verde.
Um bom exemplo vem das Filipinas. O país transformou os empregos verdes em prioridade legislativa, integrando-os a políticas como a Lei de Empregos Verdes e aos planos nacionais de Desenvolvimento e de Trabalho. Além disso, articulou diversos órgãos federais por meio do Comitê Intersetorial de Empregos Verdes, liderado pelo Ministério do Trabalho, para alinhar as áreas de educação, meio ambiente, comércio e finanças em prol de um objetivo comum: priorizar a qualificação e o desenvolvimento de uma força de trabalho para a economia verde. Esse é o tipo de planejamento e gestão pública capaz de integrar empregos de baixo carbono em todas as áreas da economia.
A inovação também é fundamental. Governos e empresas precisam testar, identificar e ampliar uma nova geração de programas de capacitação flexíveis e modulares, atuando com parceiros de execução e implementação para transformar objetivos de políticas públicas em programas eficazes. Isso inclui a criação de plataformas inteligentes de credenciamento e recrutamento que abram caminhos para empregos e meios de subsistência. Os programas precisam preparar as pessoas para ocupações emergentes de baixa emissão de carbono e resilientes ao clima, além de requalificar profissionais cujas funções estão em constante evolução. Devem também contemplar aqueles que geralmente ficam de fora de programas de desenvolvimento profissional, como trabalhadores informais, mulheres e comunidades rurais.
No Paquistão, o programa Roshni Baji, da empresa de energia K-Electric, é um exemplo inovador de capacitação profissional. O programa ajuda mulheres de áreas de baixa renda a se tornarem eletricistas certificadas, um campo historicamente dominado por homens. Além de habilidades técnicas, as participantes recebem formação em pilotagem de motocicleta, autodefesa, comunicação e gestão do estresse. O programa já capacitou 200 mulheres com habilidades para a instalação de painéis solares, manutenção de microrredes, auditorias energéticas e outras atividades essenciais para a descarbonização do sistema de energia. Modelos de capacitação inovadores como esse são capazes de garantir que a transição para uma economia de baixo carbono beneficie a todos.
Por fim, nada disso acontecerá sem investimentos contínuos. O desenvolvimento da força de trabalho e a educação sofrem com o subfinanciamento crônico, tratados muitas vezes como despesa em vez de um investimento de alto retorno. Países de baixa renda gastam menos de 0,1% do PIB em programas de capacitação e, embora os países de alta renda gastem mais, esse investimento vem caindo nas últimas duas décadas. Governos e empresas precisam trabalhar juntos para alinhar a política fiscal às metas de emprego e criar os incentivos corretos para que o setor privado invista na capacitação de seus trabalhadores. Instituições financeiras, como bancos multilaterais de desenvolvimento, também desempenham um papel importante ao incorporar investimentos em capital humano ao financiamento climático e de desenvolvimento.
Os planos do Quênia mostram avanços promissores nessa área. O Marco de Política de Incentivos Fiscais Verdes, por exemplo, busca mobilizar investimentos privados para uma economia resiliente e de baixas emissões – principalmente na agricultura, que representa quase 25% do PIB do país e é um setor altamente vulnerável aos impactos das mudanças climáticas. O marco propõe instrumentos para atrair e reduzir riscos do financiamento privado, entre os quais: um Banco de Investimento Verde e um Esquema de Garantia de Crédito para viabilizar empréstimos a empresas do agronegócio e pequenas e médias empresas verdes; um marco para Títulos Verdes para canalizar investimentos do mercado de capitais; e capacitação para desenvolver os profissionais com habilidades verdes relevantes. Se implementados de forma eficaz, esses mecanismos podem estimular a criação de empregos na agricultura sustentável, em energias renováveis para irrigação e no processamento agrícola, funções essenciais tanto para a resiliência climática quanto para os empregos na área rural. Esse tipo de financiamento pode gerar múltiplos benefícios simultaneamente.
Aproveitar a oportunidade
A economia está mudando. Os países que se adaptarem mais rápido são os que atrairão mais investimentos, reduzirão custos e criarão boas oportunidades de trabalho. Aqueles que hesitarem correm o risco de ficar para trás.
A transição para uma economia nova, mais resiliente e de baixo carbono visa, em última análise, melhorar a vida das pessoas, tanto hoje quanto no futuro. Isso se aplica a diversos aspectos: respirar um ar mais limpo, reduzir as contas de energia, aliviar os congestionamentos e proteger comunidades vulneráveis contra tempestades cada vez mais intensar, incêndios florestais e ondas de calor extremo. Aproveitar essa oportunidade pode levar também à criação de empregos mais bem remunerados, economias locais mais fortes e um futuro mais seguro para os trabalhadores e suas comunidades.
Este artigo foi publicado originalmente no Insights.