Terceiro encontro da e-FAST Brasil discutiu condições para a eletrificação do transporte de carga no país
Políticas públicas, tecnologia, infraestrutura e financiamento para caminhões elétricos foram pauta do encontro, que reuniu mais de 40 representantes de empresas, governo e organizações da sociedade civil
O terceiro encontro da plataforma e-FAST Brasil reuniu, no dia 9 de abril, mais de 50 representantes de empresas, governo e organizações da sociedade civil para discutir as condições reais para eletrificar o transporte rodoviário de cargas no Brasil.
O encontro online teve como ponto de partida os primeiros mapeamentos e análises que subsidiam a construção do Roteiro para Eletrificação do Transporte de Carga, um guia prático em desenvolvimento pela e-FAST Brasil para apoiar empresas na transição para frotas de carga elétricas. Durante a reunião, WRI Brasil, C40 Cities, CALSTART e ABVE apresentaram estudos sobre políticas públicas, linhas de financiamento, modelos de veículos disponíveis no mercado e infraestrutura de recarga.
"A plataforma e-FAST Brasil nasce com esse propósito: criar um espaço de articulação, alinhamento e construção conjunta. Esse encontro está marcando um passo importante: o de iniciar, de forma colaborativa, a construção de um caminho para a eletrificação do transporte de carga no Brasil", afirmou Magdala Arioli, gerente de Descarbonização do Transporte do WRI Brasil, na abertura do encontro.
Cresce a oferta de caminhões elétricos
O primeiro bloco do painel contou com a participação de Laís Caldeira, gerente de projetos da CALSTART/Drive to Zero, e Isabela Barbosa, consultora da mesma iniciativa. A apresentação destacou a iniciativa e-Dutra, projeto de corredor verde entre Rio de Janeiro e São Paulo que prevê capacidade para mais de 1.000 viagens diárias de caminhões a bateria até 2030, com início das operações em 2026.
Laís Caldeira destacou que o número de modelos de veículos elétricos disponíveis na América do Sul quadruplicou entre 2020 e 2024, com 60 opções disponíveis considerando Brasil, Chile e Colômbia e 20 montadoras atuando na região. Na Ásia, o crescimento foi de dez vezes no mesmo período. Caldeira detalhou o mapeamento atualizado do mercado brasileiro, desenvolvido em parceria com o WRI Brasil, que identificou 47 modelos e 93 configurações diferentes em abril de 2026.
Esse avanço também se reflete na viabilidade operacional da eletrificação. Segundo Caldeira, os veículos disponíveis já têm autonomia suficiente para a distância média percorrida por caminhões no Brasil. "O principal desafio deixa de ser técnico e passa a ser de infraestrutura, especialmente quando a gente está falando de veículos pesados operando num país de dimensões continentais", destacou.
Infraestrutura de recarga ainda é desafio
Marcia Loureiro, diretora conselheira da ABVE, apresentou um panorama da infraestrutura de recarga no Brasil. Os dados são expressivos: em 2026, o país conta com 21 mil eletropostos – aumento de 24% em relação a setembro do ano anterior, quando havia 17 mil. Desde 2022, o crescimento acumulado chega a 1.584% e, atualmente, 1.649 municípios brasileiros já têm alguma infraestrutura de recarga.
Segundo Loureiro, apesar do avanço, o Brasil ainda está longe da referência da IEA, que recomenda uma proporção de 10 veículos para cada ponto de recarga público ou semipúblico. Atualmente, a relação é de 20 para 1.
Loureiro detalhou desafios concretos de implantação: dificuldades de conexão com distribuidoras de energia em locais ermos, alto custo de obras civis e a separação necessária entre espaços de recarga para veículos leves e pesados, que têm necessidades operacionais muito distintas. "É o dilema do ovo e da galinha: você tem menos infraestrutura DC dedicada a pesados porque tem uma frota ainda incipiente. Ou tem uma frota incipiente porque há uma preocupação do operador em investir numa frota sem uma rede de recarga adequada", afirmou.
Financiamento ainda não se concretiza
Segundo Bianca Macêdo, líder global de Finanças para Transporte Limpo da C40 Cities, um mapeamento das linhas de financiamento disponíveis para eletrificação do transporte de carga no Brasil realizado em 2024 apresentou um diagnóstico revelador: embora houvesse linhas voltadas ao setor, não havia transações efetivas.
"Não existe um problema de oferta de financiamento, mas existe um desencaixe entre demanda e oferta. As transações simplesmente não estavam acontecendo" , explicou Macêdo.
Atuando dentro da iniciativa Laneshift, do C40 Cities, a equipe apoiou quatro empresas em busca de financiamento e viabilizou uma primeira transação: quatro caminhões financiados pelo Santander. Entre as principais barreiras, destacam-se exigências financeiras e regulatórias que limitam o acesso ao crédito, além de um descompasso entre o tamanho das operações demandadas pelas empresas e os volumes mínimos exigidos por financiadores.
"Um dos maiores riscos é saber quanto o veículo vale no final do empréstimo – o quanto irá depreciar. Na Califórnia (EUA), o governo pode garantir apoio ao valor residual do veículo. Isso faz com que o financiador tenha menos riscos e destrava o mercado", afirmou Macêdo.
Mapeamento de políticas públicas
Mariana Barcelos, coordenadora de Descarbonização do Transporte do WRI Brasil, apresentou um mapeamento de políticas públicas que impactam a eletrificação do transporte de carga, desenvolvido pelo WRI Brasil em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Foram identificadas mais de 25 políticas nacionais relevantes, além de iniciativas locais.
"A gente tem a oportunidade de promover maior integração entre políticas industriais, energéticas e climáticas, entre setor público e privado. Que o setor público use os insumos que vêm do privado para construir políticas mais efetivas" , avaliou Barcelos.
Próximos encontros
No dia 14 de maio, a plataforma inicia uma série de encontros temáticos, o Recharge e-FAST . O primeiro encontro terá como foco as Diretrizes para Descarbonizar o Transporte Urbano de Carga.
Já o 4º encontro da e-FAST Brasil está previsto para 18 de junho, com foco em modelos de negócios alternativos e indicadores de monitoramento de operações.
Interessados em integrar a iniciativa podem enviar um email para [email protected].
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